Menem terá que depor na Justiça e pode ser preso

O ex-presidente Carlos Menem terá que prestar depoimento na Justiça sobre o escândalo das vendas ilegais de armas à Croácia e Equador entre 1991 e 1995. Menem foi convocado pelo juiz federal Jorge Urso, a pedido do promotor Carlos Stornelli, que considera o ex-presidente como o chefe de uma organização mafiosa que preparou a venda e o envio das armas. Analistas não descartam a possibilidade jurídica de que Menem possa ser detido depois de prestar depoimento, que foi marcado para o dia 13 de julho. O delito de chefiar uma organização ilícita não é passível de fiança na Argentina. Neste caso, Menem não iria a uma prisão normal, já que, por ter mais de 70 anos, poderia usufruir do direito de prisão domiciliar. O juiz Urso também convocou para depoimento o ex-ministro da Defesa, Ermán González, o ex-chanceler Guido Di Tella, e o ex-chefe do Exército, Martín Balza, que assinaram - junto com Menem - os polêmicos decretos permitindo a venda das armas. O escândalo das armas veio à tona por diversos lados: pouco depois da venda ao Equador, os compradores destas armas protestaram publicamente que elas eram usadas e estavam imprestáveis. Primeiro, o governo Menem afirmou que não havia ocorrido nenhuma venda de armas. Depois, admitiu que algumas vendas haviam sido feitas à Venezuela e ao Panamá. No entanto, este argumento foi derrubado pela evidência de que o Panamá não possui Exército há mais de uma década, e que a Venezuela não precisava desse equipamento. A gravidade do envio das armas - além do destino dos fundos obtidos com a venda, que nunca foram localizados - também causou constrangimentos para a Argentina no cenário internacional, já que havia vendido armas a dois países que estavam em guerra e sob embargo de armas. O Equador com o Peru, e a Croácia, engolfada na guerra da ex-Iugoslávia. No caso do Equador, a imagem da Argentina sofreu mais, já que o governo Menem havia vendido armas a um inimigo de um tradicional aliado seu, o Peru. Em 1982, no meio da Guerra das Malvinas, o governo do presidente peruano Belaúnde Terry foi um dos poucos a fornecer armamento para a Argentina. Além disso, a Argentina - país vendedor das armas - paradoxalmente também tinha um papel pacifista, já que integrava o Grupo do Rio, que, junto com o Brasil, EUA e Chile, tentavam conseguir estabelecer a paz entre o Peru e o Equador. O analista político Rosendo Fraga disse à Agência Estado que considera remota a possibilidade de que Menem seja preso: "não há condições políticas para isso. Seria uma complicação muito grande para o atual governo". Enquanto isso, o juiz Urso começa a sentir um aumento das pressões para deixar as investigações. Ontem à tarde, denunciou que durante o fim de semana recebeu diversas ameaças de morte, por telefone, de forma anônima. Ao mesmo tempo, o ex-vice-presidente Carlos "Chacho" Álvarez anunciou que deixará de exercer uma chefia "unipessoal" de seu partido, a frente centro-esquerdista Frepaso. Segundo Álvarez, irá "compartilhar as decisões com outros líderes" do partido. Esta atitude foi interpretada como uma conseqüência dos diversos rachas e dissidências que a Frepaso teve nos últimos meses, por causa da crescente guinada neo-liberal do governo.

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