Tyler Hicks/The New York Times
Tyler Hicks/The New York Times

Menina de 7 anos que se tornou símbolo da fome no Iêmen morre perto de hospital

Amal Hussain vomitava regularmente e sofria de diarreia; mesmo doente, foi liberada pelos médicos e voltou para casa, pois família não tinha dinheiro para enviá-la a um hospital do Médicos Sem Fronteiras, localizado a cerca de 24 km de onde estava

O Estado de S.Paulo

02 Novembro 2018 | 11h33

CAIRO - O olhar assombrado de Amal Hussain, uma garota de 7 anos cuja imagem deitada em uma cama de hospital no norte do Iêmen se tornou o símbolo da fome no país, parecia resumir as terríveis circunstâncias de seu Estado devastado pela guerra.

A imagem dela publicada no jornal americano The New York Times na semana passada desencadeou diversas ações dos leitores, que se diziam emocionados e chegaram a oferecer dinheiro para a família da criança. Muitos enviaram perguntas à publicação pois queriam saber se ela estava melhorando.

Nesta quinta-feira, 1.º, no entanto, a família de Amal informou que ela morreu em um precário campo de refugiados localizado a pouco mais de 6 km de um hospital.

“Meu coração está despedaçado”, disse a mãe da menina, Mariam Ali, que chorou durante a entrevista por telefone ao jornal Washington Post. “Amal estava sempre sorrindo. Agora, estou preocupada com meu outro filho.”

O doloroso custo humano da guerra no Iêmen liderada pelos sauditas tem ocupado o topo da agenda global, enquanto o assassinato do jornalista saudita Jamal Khashoggi tem levado líderes ocidentais a reexaminar o apoio dado ao conflito.

Recentemente, os Estados Unidos e o Reino Unido, maiores fornecedores de armas da Arábia Saudita, pediram um cessar-fogo no Iêmen. O secretário de Defesa americano, Jim Mattis, afirmou que ele entraria em vigor dentro de 30 dias. “Tivemos de agir em direção a um esforço para a paz aqui, e não podemos dizer que vamos fazê-lo em algum momento no futuro.”

Imagens de iemenitas desnutridos, como Amal - uma das 1,8 milhão de crianças que sofrem de desnutrição severa no país -, são cada vez mais comuns diante do temor que uma crise de fome catastrófica possa assolar o país inteiro nos próximos meses.

As Nações Unidas alertam que o número de iemenitas que dependem de ações de emergência - 8 milhões - pode aumentar para 14 milhões, o que corresponde a cerca de metade da população do Iêmen.

Membros de organizações humanitárias e líderes políticos pedem o fim das hostilidades, assim como medidas emergenciais para alavancar a fragilizada economia do país, onde o aumento do preço dos alimentos levou milhões de pessoas a condições extremas.

Últimos dias de Amal

Em uma viagem ao Iêmen para documentar as vítimas da guerra no país, jornalistas do Washington Post encontraram Amal em um centro de saúde em Aslam, a 145 km da capital, Sanaa. Ela estava deitada em uma cama com a mãe. Enfermeiras a alimentavam a cada duas horas com leite, mas ela vomitava regularmente e sofria de diarreia. “Olhe”, disse a médica Mekkia Mahdi. “Não há músculo, apenas ossos.”

A mãe de Amal também estava doente e se recuperava de uma febre causada por um surto de dengue, doença que ela contraiu dos mosquitos que proliferam na água parada no campo de refugiados.

Os conflitos forçaram a família de Amal a fugir de casa há três anos. O grupo é originário de Saada, uma província na fronteira com a Arábia Saudita que sofreu com ao menos 18 mil ataques aéreos liderados pelos sauditas desde 2015. A região de Saada também é o lar dos rebeldes houthis que controlam o norte do Iêmen, e são vistos pelo príncipe saudita, Mohamed bin Salman, como representantes do inimigo Irã.

Amal, em árabe, significa “esperança”, e alguns leitores esperavam que a imagem do sofrimento dela pudesse ajudar a voltar as atenções para a guerra na qual milhões de civis morrem em razão da violência, fome e doenças. Em 2017, o Iêmen sofreu a maior epidemia de cólera dos últimos anos, registrando mais de 1 milhão de casos.

A menina teve alta do hospital de Aslam na semana passada, mesmo doente. Os médicos alegaram que precisavam de espaço para novos pacientes, de acordo com Mekkia. “Temos muitos outros casos como o dela.”

A família, então, levou a filha para casa - como chamam a cabana de plástico no campo de refugiados onde agências humanitárias fornecem ajuda, como o fornecimento de açúcar e arroz. Infelizmente, não foi o suficiente para salvar Amal. O estado dela piorou e três dias depois de deixar o hospital, a menina morreu.

A médica havia pedido que a mãe de Amal a levasse para um hospital do Médicos Sem Fronteiras em Abs, cerca de 24 km de onde elas estavam, mas a família não tinha dinheiro. O preço do combustível subiu cerca de 50% em 2017, parte do colapso da economia local, o que fez das viagens a outros locais algo impossível para a maioria das famílias. “Não tinha dinheiro para levá-la ao hospital”, disse Ali. “Então a levei para casa.” / W.POST

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