REUTERS/David Mercado
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'Menina' escapa de temporal e vê Papa Francisco

Chuva castigou quem dormiu na rua por missa

Rodrigo Cavalheiro, enviado especial / Quito, O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2015 | 02h05

A família Ortiz amanheceu ontem encharcada, assim como todos os fiéis que resolveram dormir no Parque Bicentenário, tivessem ou não barraca. "Pelo teto até que não entrava água, mas por baixo ficou inundado. Às 5 horas caiu até granizo", relatou sem perder o bom humor a dona de casa Cecilia Ortiz.

Ela chegou ao parque na noite de segunda-feira, depois de caminhar três horas. Não estava só. Levava as cinco filhas e "Menina", de 3 meses, que entrou escondida em uma mochila.

Mascotes estavam proibidos de ver o papa. "Ela se molhou com a gente e agora está sofrendo com o sol", explicava Elizabeth, uma das filhas de Cecilia, agarrada à vira-lata.

Depois de cinco horas de chuva forte da madrugada, sob 10º C, o sol reapareceu na hora da missa e os guarda-chuvas viraram sombrinhas. Cecília estava feliz com o discurso do pontífice. "Quando disse a palavra ditadura, todos aqui aplaudiram", afirmou, referindo-se aos vizinhos de barraca. "Falou dos ricos e do autoritarismo. Tem a ver com o que estamos vivendo", resumiu.

Petrona Soto, de 64 anos, relativizou críticas ao governo. "Ele fez coisas boas, aumentou o salário dos trabalhadores, mas também ruins. Perdi a bolsa que me davam. Disseram que como já tinha aposentadoria (US$ 175) não precisava". Aposentada por invalidez, ela tem próteses nos dois joelhos e problema de coluna. Com uma bengala na mão direita, mancava ao levar às costas, envolta em um lençol, a neta de 1 ano, Belén.

A variação do clima foi encarada por Petrona como uma provação. O Parque Bicentenário é o antigo aeroporto de Quito, no centro, adaptado como área de lazer. O papa oficiou a missa em um palco armado na frente dos prédios de embarque e desembarque e sua mensagem chegava aos fiéis na pista de pouso. O mesmo concreto que à noite induziu a água sob as barracas, ao meio-dia, com 17º C, teve o efeito de uma chapa que secou os fiéis, até fazê-los suar.

Carlos Rengel chamava atenção de camisa de manga comprida e gravata. "Sou contador e vim direto do trabalho ontem (segunda-feira) de tarde", justificou-se, como se a profissão exigisse a roupa sob qualquer circunstância. Ele carregava a barraca molhada em que dormiu com a mãe.

Espremido pela multidão que saía vagarosamente após Francisco encerrar o ato com seu clássico "rezem por mim", o pedreiro Cesar Peralta, que também chegou na noite anterior, protegia com a mão esquerda a mulher grávida de seis meses. Com a direita, agarrava o binóculo usado para ver o papa. "Deve se chamar Francisco", disse, referindo-se ao bebê.

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