AFP PHOTO / ROYAL THAI NAVY
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Menino apátrida se torna o porta-voz do grupo na caverna da Tailândia por saber falar inglês

Garoto nasceu no país vizinho, Myanmar, fala quatro línguas e, além de jogar futebol, toca piano e guitarra

O Estado de S.Paulo

06 Julho 2018 | 17h16

MAE SAI, TAILÂNDIA - Nascido em Myanmar e educado por professores cristãos na Tailândia, Adul Sam-on é uma das 12 crianças presas em uma caverna na Tailândia há 13 dias. Como dezenas de milhares de crianças no reino, ele é apátrida. Por falar inglês, tornou-se o porta-voz improvisado do grupo.

As imagens do adolescente de olhos grandes, iluminado pelas lanternas dos mergulhadores que o encontraram com os outros 11 colegas e seu professor no fundo da caverna de Tham Luang, rodaram o mundo.

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"Meu nome é Adul, estou bem de saúde", afirma em tailandês no vídeo o menino magro, fazendo em seguida o gesto do "wai", a saudação da cultura tailandesa. O grupo ainda está preso, enquanto as equipes de resgate se lançam em uma corrida contra o relógio para tentar retirá-lo daí, com a chuva ameaçando aumentar os níveis de água da caverna.

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Os professores da escola Ban Pa Moea, onde Adul estuda, elogiam seus talentos linguísticos, especialmente em inglês, em um país onde apenas um terço dos habitantes fala a língua.

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Ele foi o único capaz de se comunicar com os mergulhadores britânicos, os primeiros a encontrar o grupo na segunda-feira à noite. "Que dia é hoje?", perguntou Adul em inglês, explicando aos socorristas que o grupo estava com fome.

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Nascido em Wa, Estado da região do leste de Myanmar marcado por um conflito étnico, Adul também fala, além do tailandês e inglês, birmanês e chinês, e frequenta esta escola desde os sete anos. Ele deixou sua família para receber uma educação melhor no norte da Tailândia. Seus pais ficaram em Myanmar, mas o visitam com frequência na Igreja cristã que o acolheu.

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Futebol, piano e guitarra.

Os combates do grupo étnico rebelde do Exército Unido do Estado de Wa (UWSA) e o Exército birmanês forçaram milhares de pessoas ao exílio em busca de proteção e segurança, especialmente na Tailândia. Adul é uma das mais de 400 mil pessoas identificadas como apátridas no território tailandês, de acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur).

Algumas fontes estimam, no entanto, que este número alcance 3,5 milhões. "Progressos foram feitos, mas alguns apátridas na Tailândia continuam a enfrentar desafios para ter acesso a seus direitos básicos", explicou a porta-voz da ONU Hannah Macdonald.

Sem uma certidão de nascimento, identidade ou passaporte, Adul e outros apátridas na Tailândia não podem se casar legalmente, conseguir um emprego, abrir uma conta bancária, possuir bens ou votar. A Tailândia se comprometeu a registrar todos os apátridas até 2024, mas, até lá, o vácuo legal permanece.

Adul se recusa a desanimar, afirmam pessoas próximas. Além de entusiasta do futebol, ele também gosta de tocar piano e guitarra. "É uma maravilha", disse o diretor de sua escola, Phunawhit Thepsurin. "Ele é bom tanto nos estudos quanto no esporte. Ele trouxe para a escola várias medalhas e certificados graças a suas proezas". / AFP

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