Ed Jones/AFP
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Menino enfrentou fome e sede para migrar da Guatemala aos EUA

'Vim porque não tínhamos nada para comer', diz Oscar, de 12 anos, que espera se reunir em breve com seu tio, um pintor de paredes que mora em Los Angeles, e voltar a estudar

Redação, O Estado de S.Paulo

30 de março de 2021 | 10h30

ROMA, EUA  - Oscar tem 12 anos e acaba de cruzar o Rio Grande do México em direção ao Texas em uma embarcação conduzida por traficantes de seres humanos. Ele chora, tem medo e fome após uma perigosa viagem de um mês com início na Guatemala. "Venho sozinho" são suas primeiras palavras nos Estados Unidos.

“Vim porque não tínhamos nada para comer”, disse à Agência France-Presse o menino magro e com grandes olhos escuros, depois de desembarcar ao anoitecer em terras de propriedade privada na área do Vale do Rio Grande, ao lado de várias famílias de imigrantes. 

A pior coisa sobre a viagem, diz ele, foram as 12 horas que passou em um trailer cheio de migrantes perto da fronteira com o México. “Estava quente e todos começaram a desmaiar”, lembra. Ele também, até que recebeu água.

Mas guarda a boa memória de um amigo que fez no caminho, do qual mais tarde se separou. "Ele me disse para não desistir, que tínhamos que chegar lá, com a misericórdia de Deus. E também me disse que eu teria uma vida melhor lá."

Nos Estados Unidos “vou poder estudar”, afirma. "Eu vou aprender como fazer para trazer minha mãe". 

Ele espera se reunir em breve com seu tio, um pintor de paredes que mora em Los Angeles há 15 anos.

Mais de 70 imigrantes sem documentos - a maioria da Guatemala e Honduras, mas também dois da Romênia - cruzaram o Rio Grande perto de Roma, Texas, na noite de sábado, apurou a Agência France-Presse. Mais de 20 deles eram crianças e adolescentes desacompanhados, alguns apenas com sete anos.

Problema crônico

O problema crônico da imigração ilegal para os Estados Unidos se tornou um dos maiores desafios políticos do presidente democrata Joe Biden, dois meses após assumir o cargo.

A direita o ataca por não proteger totalmente os quase 3.200 km de fronteira com o México e o acusa de ter gerado uma crise com suas políticas migratórias mais flexíveis, enquanto a esquerda o critica por não aceitar um número maior de imigrantes e por não melhorar rapidamente suas condições de acolhimento.

Embora procure desfazer as políticas de seu antecessor Donald Trump, Biden garante que a fronteira não está aberta e que a maioria dos imigrantes é deportada rapidamente.

Mas, ao contrário de Trump, ele afirma que nenhuma criança que chegar sozinha ao país será expulsa e já liberou milhares de famílias, no momento em que os centros de detenção e processamento do governo estão lotados.

Em fevereiro, quase 100 mil imigrantes atravessaram a fronteira ilegalmente, nível semelhante ao registrado em meados de 2019 após uma desaceleração devido à pandemia.

Mais de 9.400 menores cruzaram a fronteira sozinhos e se entregaram às autoridades no mês, 28% a mais do que em janeiro. E no decorrer de março chegaram mais de 14 mil, segundo as autoridades, que acreditam que o número continuará a aumentando. /AFP

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