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Meninos-soldados tentam esquecer a infância

Crianças forçadas a aderir às milícias relatam a rotina de horror a que foram submetidas

Mariana Della Barba, enviada especial de O Estado de S. Paulo,

18 de dezembro de 2007 | 15h07

Meninos que já foram soldados não costumam rir muito. No quintal da BVES, instituição que dá abrigo para crianças desmobilizadas em Bukavu, no leste do Congo, Mudimbe*, de 17 anos, e Patrick, de 15, estão de cara amarrada, não querem conversar. Até que Murhabazi Namegabe, diretor da BVES, explica que a jornalista do Estado vinha do mesmo país de Ronaldo e Ronaldinho. Eles, então, abrem um sorriso e aceitam falar de sua infância.   África, um continente em transformação China vai à África e muda o continente A África que prospera: Angola vive ‘milagre econômico' Brasileiros faturam alto no mercado angolano Darfur é retrato da velha África Zimbábue de Mugabe vai na contramão Vítimas da guerra: violência sexual ainda é epidemia Imagens da África   Os dois chegaram ao BVES há cinco meses, após agências humanitárias negociarem com as milícias em que lutavam e trazê-los para o centro, onde ficam até encontrarem suas famílias. Assim como Mudimbe e Patrick, outras 30 mil crianças já participaram de conflitos armados no Congo desde 1998. Hoje, cerca de 12 mil ainda pegam em armas (40% meninas). Além do Congo, há crianças lutando em Uganda, Somália e Sudão.   Quando tinha 14 anos, Mudimbe foi levado por rebeldes que invadiram seu vilarejo. Ele lutou por três anos no conflito que assola principalmente o nordeste do Congo (ler ao lado). "Logo de cara, eles me deram uma arma. Matei muitas pessoas, não sei dizer quantas", conta o garoto, olhando para o chão. "Mas agora não faço mais isso", diz, fitando a repórter nos olhos, para convencê-la.   "Eu vivia como um animal selvagem", emenda Patrick. "Não me importava com ninguém. Estava sempre drogado. Eles me falavam que a droga ia me proteger, mas na verdade era para não me dar conta do perigo", diz o garoto. Namegabe conta que Patrick foi um dos meninos mais violentos que já chegou ao centro: "Ele estava viciado, foi complicadíssimo recuperá-lo", diz. As drogas usadas são anfetaminas e brown-brown (mistura de cocaína com pólvora).   Patrick entrou na milícia aos 11 anos, por vontade própria. "Ninguém me obrigou. Via os combates, gente sendo morta toda hora. Então decidi entrar no grupo para defender o lugar onde eu morava." O diretor explica que, no Congo, muitas crianças recrutadas por milícias - algumas com apenas 6 anos - repetem essa história. Na verdade, trata-se de uma justificativa criada pelos rebeldes para convencer os garotos a lutar. Mas, após quatro anos, Patrick diz que ficou feliz em ser resgatado.   Mudimbe também sorri quando se imagina voltando para casa. Por meio de seu projeto de reunificação, a Cruz Vermelha encontrou sua família e ele já se comunicou com os pais por cartas. "Mal posso esperar. Quando eu chegar lá, vou aprender mecânica e trabalhar para me sustentar", diz ele, que só poderá retornar ao seu vilarejo em Kivu do Norte quando a situação por lá se acalmar. Caso contrário, o risco de voltar a ser capturado e forçado a lutar é muito grande.   Escrava sexual   Subindo uma escadinha de madeira, num quarto com beliches e lençóis puídos, estão Francine e Thérèse, de 17 anos, e Kizade, de 14. As três chegaram ao BVES há três meses e carregam no colo bebês, seus filhos. "Éramos esposas de militares", diz Francine, timidamente, sem explicar sua verdadeira condição, a de escrava sexual dos rebeldes.   As crianças do "casamento" são frutos de estupros. "Para mim, os piores momentos eram quando havia troca de tiros e eu era obrigada a correr carregando a bagagem dos soldados. Sempre achava que ia levar um tiro e morrer", diz Francine, mãe de uma menina de 2 anos e um bebê de 1 mês. Ruandesa da etnia hutu, ela foi capturada no campo de refugiados em que vivia e acompanhou uma milícia por mais de três anos na região de Fizi.   Com uma filha de 1 mês, Thérèse conta que ficou três anos com um grupo armado na região de Uvira, no sul: "Eu era violentada várias vezes por semana. Não sei quando vou conseguir esquecer isso", diz. Já Kizade tinha apenas 8 anos quando foi capturada, violentada e obrigada a participar dos conflitos. Muitos congoleses acreditam que, ao estuprar uma mulher, eles ficam mais protegidos e poderosos, e quanto mais jovem for a vítima, maior será sua força.   "O pesadelo era tanto que eu comecei a carregar uma arma também, precisava me proteger", diz a garota, enquanto distrai Dieumerci ("Obrigado, Deus", em francês), seu filho de 1 ano. "Coloquei esse nome nele porque é somente graças a Deus que ainda estou viva." A família de Kizade ainda não foi encontrada. Já Francine e Thérèse tiveram mais sorte e voltarão para casa em algumas semanas.   Antes de ir almoçar - um prato com uma montanha de arroz e feijão -, Mudimbe e Patrick ainda têm os craques brasileiros em mente e garantem que jogam futebol muito bem. Mas Mudimbe faz uma ressalva. "É que às vezes não consigo correr muito, por causa de um tiro que levei", diz, mostrando uma cicatriz branca no tornozelo. "De tudo o que eu sofri, esse dia foi o pior, mas deixa isso para lá", acrescenta. Assim como Mudimbe, outras 18 mil crianças congolesas que foram resgatadas dos conflitos também estão tentado esquecer a infância como meninos-soldados.   Números 300 mil crianças lutam em guerras   100 mil apenas na África   12 mil participam de conflitos no Congo

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