Menos campos de coca na Bolívia

La Paz adota política alternativa de erradicação e consegue resultados melhores do que a repressão exigida pelos EUA

É CORRESPONDENTE NA REGIÃO ANDINA, WILLIAM, NEUMAN, THE NEW YORK TIMES, É CORRESPONDENTE NA REGIÃO ANDINA, WILLIAM, NEUMAN, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

31 de dezembro de 2012 | 02h04

Não há nada clandestino na plantação de coca de Julian Rojas, um lote de terra no meio de um cultivo de bananas. O terreno está mapeado por satélite, catalogado pelo governo, examinado e reexaminado pelo sindicato dos plantadores de coca locais. O mesmo vale para os outros lotes usados por vizinhos de Rojas e milhares de agricultores no leste dos Andes que têm licença para plantar a coca.

O presidente boliviano, Evo Morales, que se tornou conhecido como líder cocaleiro, expulsou a Drug Enforcement Administration (agência antidrogas dos EUA) em 2009. A expulsão e outros fatos levaram Washington a concluir que a Bolívia não estava atendendo a suas obrigações internacionais na luta contra o narcotráfico.

Mas, apesar da disputa com os EUA, a Bolívia, terceira maior produtora de coca do mundo, implantou seu próprio programa nada ortodoxo para controlar a plantação de coca, que diverge da tradicional guerra contra as drogas e inclui o monitoramento das plantações legais de coca destinada para usos tradicionais.

Para surpresa de muitos, o experimento resultou numa queda significativa das plantações de coca na Bolívia, êxito obtido sem crimes e outros tipos de violência que foram o resultado sangrento de medidas lideradas pelos americanos para controlar o tráfico em outras áreas da América Latina.

Contudo, há sinais preocupantes de que esses ganhos estão sendo prejudicados, pois os traficantes vêm usando métodos mais eficazes para produzir cocaína e continuar tirando a droga do país. O total de hectares plantados caiu de 12% a 13% no ano passado. Ao mesmo tempo, o governo boliviano intensificou seus esforços para acabar com plantações não autorizadas e registrou um aumento nas apreensões de cocaína e de sua pasta-base.

Embora a Bolívia proíba a cocaína, ela permite a plantação de coca para usos tradicionais. Os bolivianos mascam as folhas de coca como estimulante e a usam como remédio e chá. Entre os indígenas, ela também é utilizada em rituais. Certa tarde, recentemente, Rojas colocou algumas folhas na boca e olhou o pôr do sol sobre sua plantação, pouco menos de dois quintos de meio hectare, o máximo permitido por agricultor na região conhecida como Chapare.

Rojas é a imagem de uma região que vem mudando. Ele ganha muito mais plantando bananas para exportação em cerca de 30 hectares de terra do que cultivando coca. No entanto, não pretende renunciar ao espaço que lhe é permitido plantar a coca.

O governo boliviano convenceu os plantadores de que, ao limitar o número de cultivos, os preços da coca continuarão altos. E se concentrou na erradicação das plantações fora das áreas controladas pelos sindicatos de agricultores, o que antigamente desencadearia uma forte resistência popular.

Empenho. O registro de plantadores de coca em Chapare, concluído este ano, faz parte de um sistema de fiscalização que depende do policiamento dos próprios plantadores. Se agricultores registrados cultivarem coca acima do máximo permitido, soldados são chamados para remover o excesso. Se a norma for violada pela segunda vez, todo o plantio é erradicado e o plantador perde o direito de cultivar coca. Os sindicatos podem ser punidos se houver múltiplas violações por parte dos seus membros.

Entretanto, existe muita fraude. As autoridades dizem estar examinando em detalhes o registro de 43 mil plantadores para descobrir aqueles que podem ter múltiplos terrenos com plantação de coca ou que violaram outras normas.

A DEA estima que, apesar da diminuição da superfície dos terrenos, a quantidade de cocaína que pode ser potencialmente produzida a partir da coca plantada na Bolívia subiu mais de 25%. Isso porque uma grande parte das plantações começou a amadurecer e a produção aumentou, novos cultivos com rendimento maior substituíram os antigos campos, menos produtivos, e os traficantes passaram a usar métodos de processamento mais eficientes.

Contudo, o paradoxo do programa de monitoramento da Bolívia é que enormes quantidades da coca plantada legalmente acabam nas mãos dos traficantes e é convertida em cocaína e seus subprodutos. Estima-se que mais de 90% da coca de Chapare seja usada na produção da cocaína.

A cocaína boliviana, no entanto, não vai para os EUA. Grande parte da droga vai para o Brasil, considerado o segundo maior mercado de cocaína do mundo. O problema central é o quanto da folha coca é necessário para suprir as necessidades tradicionais dos bolivianos. O governo autoriza em torno de 20 mil hectares de plantação legal, embora o cultivo, de fato, seja muito mais alto.

As Nações Unidas estimam que, no ano passado, ela chegou a mais de 27 mil hectares. Independentemente dos números, muitos analistas concordam que é produzido muito mais do que o necessário para atender ao mercado tradicional no país.

O empenho para reduzir a plantação surge ao mesmo tempo em que o governo de Evo pressiona outros países para aprovar uma emenda numa convenção da ONU sobre drogas para reconhecer a legalidade do uso das folhas de coca para fins tradicionais - uma decisão que é aguardada para o mês que vem. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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