Mariana Nedelcu/REUTERS
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Menos tensão entre líderes argentinos; leia artigo

Clima ruim entre presidente e vice parece ter diminuído diante de um acordo com FMI

Nick Burns*, Americas Quarterly, O Estado de S.Paulo

04 de janeiro de 2022 | 05h00

Em entrevista para o jornal La Nación publicada em 8 de dezembro, o presidente Alberto Fernández afirmou: “Sou eu quem decide”. Enquanto isso, sua poderosa vice, Cristina Fernández de Kirchner escreveu em uma carta aberta que “não é a pessoa com a caneta na mão”, em relação ao potencial de um alardeado futuro acordo com o FMI. Haverá uma nova détente entre os aliados peronistas no poder – ou isso não passa de uma trégua temporária? 

A questão é vital para o futuro de uma Argentina machucada pela pandemia e com inflação próxima a 50%. Enfraquecida por uma danosa derrota nas eleições de meio de mandato, em novembro, a coalizão governista Frente de Todos precisa que todos os seus díspares elementos no Congresso trabalhem juntos para dar apoio ao acordo com o FMI, um esforço que sofreu um revés em 17 de dezembro, quando a Câmara Baixa rejeitou a proposta de orçamento do governo. 

A influência de Cristina Kirchner e sua função como negociadora, enquanto presidente do Senado, terá um papel muito importante, pois os peronistas – uma minoria, mas ainda o maior partido – precisarão de votos de um terceiro partido, Juntos Somos Río Negro. Mas ela se apresentará para jogar? Afinal, suas palavras – “Não é Cristina que está com a caneta na mão” – podem ser interpretadas de muitas maneiras diferentes e variadas.

A briga entre os peronistas que antecedeu as eleições de novembro ainda está fresca na memória dos argentinos. Após os resultados das primárias indicarem o desastre para o governo, em setembro, Kirchner publicou uma devastadora carta aberta pedindo que Fernández demitisse vários ministros e revertesse o curso dos gastos do governo. Mas as coisas esfriaram desde então. 

Fernández atendeu parte dos pedidos de Kirchner, demitindo seu chefe da Casa Civil, mas mantendo seu ministro da Economia, Martín Guzmán. Isso não impediu o governo de sofrer uma derrota e perder a maioria na Câmara Alta, mas o dano não foi tão ruim como as primárias tinham sugerido. 

Tensões

Um resultado pouco pior do que o esperado para a coalizão de oposição Juntos por el Cambio também desencadeou tensões na aliança. “Desde a notável e sem precedentes vitória de 14 de novembro”, escreve Sergio Berensztein em La Nación, “os principais líderes da oposição comportaram-se de uma maneira perigosamente similar a (derrotas passadas da oposição)”. 

A Unión Cívica Radical está enredada em disputas internas, incluindo em oposição ao chefe do bloco Juntos por el Cambio na Câmara Baixa, Mario Negri. Enquanto isso, a presidente do partido Propuesta Republicana (PRO), Patricia Bullrich, teve de vir a público esclarecer suas declarações reclamando que a oposição ficou aquém de sua meta de conquistar 50% do eleitorado de Buenos Aires, talvez para evitar dar a parecer que estava culpando o prefeito da cidade, Horacio Rodríguez Larreta, de seu partido, pelo desempenho. 

Quem se saiu melhor das eleições de novembro, Cristina ou Alberto? Para María Esperanza Casullo, cientista política da Universidade Nacional de Río Negro, a votação favoreceu Cristina. “Antes das eleições, ela disse: ‘Precisamos colocar mais dinheiro no bolso das pessoas imediatamente, o sr. precisa demitir alguns ministros’. E ele demitiu.” Mas não foi só ela que se beneficiou da manobra. “Alberto provavelmente sentiu que seria capaz de administrar uma campanha melhor e mais disciplinada” do que muitos esperavam após a reforma, conduzindo a relação com Cristina de maneira eficaz.

O cientista político Juan Cruz Díaz observou positivamente o intercâmbio geral. “Acho que, naquela carta, Cristina expressou seu descontentamento (em relação ao seu campo político) de uma maneira bastante sistemática”, afirma, em comparação com demonstrações passadas violentas de insatisfação nas ruas. Sob esta luz, Cristina tem uma difícil tarefa a cumprir na coalizão governista: ela deve centralizar grupos de esquerda em sua órbita para apoiar, mesmo que de maneira relutante, políticas do governo que os movimentos possam não gostar. Talvez sua carta, ao registrar descontentamento e obter concessões do presidente, seja um meio eficaz de alcançar isso. 

Pacto

Esses são os desafios de um peronismo que agora opera em território desconhecido. O movimento desde sempre se valeu de poderosas figuras centrais – como Juan Perón; Carlos Menem; Néstor Kirchner, o marido falecido de Cristina; e, durante seu período na presidência, a própria Cristina Kirchner. Mas ela não é a mesma figura arrebatadora de antes, e agora o peronismo deve funcionar como uma grande tenda que abriga várias forças em competição. Com a eleição de Fernández, “o peronismo descrito normalmente como vertical e personalista (tornou-se) uma estrutura de coalizão”, afirma Casullo. 

Muitos partidos que funcionam como coalizões, como o Partido Democrata, nos EUA, têm meios familiares ou institucionais para escolher vencedores e disciplinar perdedores em brigas internas. Mas faltam ao bloco Frente de Todos mecanismos institucionais – por isso, a resolução de debates internos depende de relações pessoais; e, por sua vez, todos os envolvidos mantêm a calma. 

Isso está sendo testado neste momento, com o orçamento do governo sendo rejeitado pela Câmara Baixa, o que cria incerteza no caminho do acordo com o FMI. Críticos reclamaram de cortes de gastos em áreas cruciais, incluindo educação, campo em que a diminuição projetada no orçamento é de 6,2% na proposta apresentada inicialmente. Governadores exigiram mais subsídios para transportes fora da capital.

Os recentes sinais de boa vontade continuarão? Uma delegação do governo argentino encontrou-se com funcionários do FMI em Washington, em 10 de dezembro, e emitiu um comunicado cordial. Após o orçamento ser rejeitado, Kristalina Georgieva, diretora-geral do FMI, adotou uma posição tranquilizadora, tuitando em 17 de dezembro que havia tido uma “reunião muito boa” com Fernández. 

Há uma percepção de um desejo mútuo de chegar a um acordo satisfatório – a Argentina quer evitar outro calote; e o FMI, tendo concedido um empréstimo excepcionalmente grande para o país sob o governo de Mauricio Macri, vê sua própria reputação em jogo. 

Enquanto isso, Cristina tem ficado “bem quietinha” nas semanas recentes, afirma Cruz Díaz. Ainda assim, manifestações recorrentes de apoiadores do governo e ativistas contrários ao FMI em Buenos Aires, entre 10 e 11 de dezembro, pareceram sugerir que ela será pressionada pelos grupos de esquerda em sua órbita a reafirmar-se no processo de negociação. 

A dúvida crucial, que talvez Cristina seja a única pessoa capaz de responder, é se ela conseguirá resistir a essa pressão ou sublimá-la de uma maneira minimamente danosa – e se ela quer isso. Todos os lados parecem dispostos a um acordo, mas se a história da Argentina servir como indicativo, mais tropeços parecem inevitáveis. /TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO

* É EDITOR E GERENTE DE PRODUÇÃO DA AMERICAS QUARTERLY

 

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