Mensagem chinesa é de tolerância zero

Como uigur étnico, estou horrorizado com os tumultos, os mortos, os feridos e as prisões - os mais graves confrontos entre militares e civis dos tempos modernos - em Urumqi, a cidade que meus pais chamam de sua terra. Perdi o contato com eles e, portanto, dependo das notícias que vazam de Xinjiang. Só me resta aceitar os números do governo que falam em 184 mortos, mais de 1.000 feridos e mais de 1.400 prisões. Evidentemente, esses dados me deixam cético. Eu era um líder estudantil nos protestos da Praça Tiananmen e continuo aguardando dados oficiais confiáveis sobre o número de pessoas que morreram naquele 4 de junho de 1989. Pergunto-me por que motivo hoje - quando tão pouco mudou no panorama político em minha terra e, como muitos outros, eu continuo no exílio - os números são tão elevados e tão exatos. A única conclusão a que posso chegar é que o governo quer enviar sua mensagem brutal de tolerância zero ao povo uigur de Xinjiang, à população da China como um todo e ao mundo de que a dissensão uigur se defrontará com a força. Sem dúvida, Pequim acredita que, quando divulga as estatísticas sobre os civis que matou nas ruas, tem o apoio da população predominantemente han da China. Quando o porta-voz da chancelaria, Qin Gang, deu uma entrevista coletiva denunciando os protestos uigures como um "violento crime organizado, instigado e dirigido do exterior e cometido por foras da lei", e mostrou um vídeo como prova do que dizia, deu a impressão de que agora estamos tratando com uma China que não se preocupa mais com a opinião global. Há um amplo consenso de que a ocupação por chineses han de territórios antes uigures e tibetanos levou, com a "libertação", prosperidade e liberdade aos súditos de regimes feudais . Nesse sentido, toda oposição ao predomínio cultural e ao governo chinês é vista como uma espécie de traição. De fato, um cibernauta nacionalista defendeu essa posição respondendo ao meu blog sobre os acontecimentos em Urumqi. O povo han, ele ressaltou, é a força dominante e pode trazer uma vida melhor para os uigures. Repliquei que estava cético a respeito de argumentos desse tipo.Se aquela era uma posição lógica, podemos afirmar que teria sido melhor se tivéssemos apoiado a invasão japonesa da China, na década de 30. Os japoneses também nos prometeram uma vida melhor - e talvez eles pudessem proporcioná-la de fato. A cultura han predominante na China reage rapidamente ao que julga um ataque ao orgulho nacional - que muitas vezes se funde com conceitos étnicos sobre o significado de ser "chinês". Apesar disso, o chinês médio tem uma atitude paternalista em relação às "minorias", às quais leva esclarecimento e prosperidade. Vivo no exílio pois defendi a reforma política em 1989. Lastimo meu exílio e sofro porque não posso estar com meus pais. Mas ainda acredito que a democracia é um meio definitivo para libertar-se da opressão política. Também acredito que a democracia não deveria servir aos interesses do nacionalismo. Não defendo que a independência de Xinjiang ou do Tibete seja a resposta a nossos problemas. Mas afirmo que a autodeterminação étnica é. Com isso quero dizer um direito fundamental: ou seja, que os uigures etnicamente distintos, assim como os tibetanos etnicamente distintos - e defendo o mesmo a respeito do povo de Taiwan, o país que chamo de minha terra - têm o direito de decidir se querem fazer parte da China.Aos habitantes de Xinjiang não foi oferecida essa opção. Sou chinês. Nasci na China moderna. Houve um tempo em que lutei publicamente para torná-la um lugar melhor. Mas não posso ser nacionalista em um país em que o nacionalismo se sobrepõe à democracia. *Wu?er Kaixi, uigur, foi um dos líderes estudantis dos protestos de Tiananmen

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