Mensagem de Dilma para Washington

Presidentes de Brasil e EUA devem aproveitar reunião para mudar patamar de relação bilateral

PETER HAKIM, O Estado de S.Paulo

17 de maio de 2015 | 02h01

Brasil e Estados Unidos têm um grande interesse na visita que a presidente Dilma Rousseff realizará a Washington no próximo mês. Para o Brasil, essa é uma oportunidade para reforçar a confiança, interna e externamente, de que o governo está no caminho certo, enfrentando com retidão seus múltiplos problemas de governança e econômicos. Além disso, o encontro com o presidente Obama provavelmente será um fato positivo para a presidente do Brasil - o primeiro em meses -, talvez restaurando em alguma medida a sua aprovação pública quase exaurida.

Os Estados Unidos não têm a mesma urgência do Brasil. Mas ao reativar seu envolvimento com o Brasil, juntamente com a normalização das relações diplomáticas com Cuba, o governo de Obama coloca as relações interamericanas num caminho mais construtivo do que se observava havia seis anos.

Uma melhora das relações com os Estados Unidos não solucionará os problemas do Brasil, mas esse será um componente importante para aumentar os esforços com o fim de restaurar a economia do país e restabelecer sua posição internacional.

Mudança de rota. A viagem de Dilma já é vista como um sinal de que seu governo adotou um enfoque mais pragmático na condução da economia e da política externa. Para se beneficiar plenamente da visita, a presidente tem de chegar a Washington com uma agenda muito clara em mente. Sua mensagem mais importante é a de que apoia vigorosamente o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, e o seu programa econômico, elogiado por políticos e empresários tanto nos Estados Unidos como no Brasil.

A pergunta ainda sem resposta é se os políticos irascíveis do País permitirão que o programa seja implementado. A batalha será árdua para se obter a aprovação do Congresso para as impopulares medidas de austeridade, necessárias para reduzir os déficits e a inflação.

Dilma não pode garantir o sucesso do programa econômico, mas sem o seu sólido apoio ele provavelmente será bem diluído por determinados oponentes. Um compromisso inequívoco da presidente, confirmando o que tem afirmado no Brasil, tranquilizaria os investidores privados e o governo dos Estados Unidos, como também o setor corporativo brasileiro.

Em segundo lugar, a presidente deve demonstrar seu interesse em continuar a ambiciosa expansão das relações econômicas entre os dois países, embora dentro de limites plausíveis.

Não existe nenhuma possibilidade, por exemplo, de Estados Unidos e Brasil negociarem um novo acordo comercial de porte relevante num futuro próximo. Os dois países não firmam um acordo econômico substancial há mais de uma geração. Além disso, os Estados Unidos já vêm negociando dois grandes pactos comerciais com outros países, ao passo que o Brasil continua aferrado à união alfandegária do Mercosul que caminha aos tropeços e, depois de 20 anos de negociações, não conseguiu negociar nem mesmo um modesto acordo com a União Europeia.

Apesar disso, o comércio entre Brasil e Estados Unidos cresceu consideravelmente nos últimos anos, quase dobrando desde 2000. Mas ainda é modesto e há um amplo espaço para uma expansão mais rápida nos próximos anos.

O comércio com o México equivale a US$ 500 bilhões por ano, representando 15% de todo o comércio dos Estados Unidos. O intercâmbio comercial com o Brasil, pelo contrário, é de apenas US$ 80 bilhões ao ano. É claro que o México compartilha uma extensa fronteira com os Estados Unidos e tem um acordo comercial com seu vizinho do norte que data de 20 anos, mas o comércio da China com os Estados Unidos também supera os US$ 500 bilhões sem um acordo comercial ou uma fronteira comum com o país americano. O Brasil pode se sair melhor.

Projeções. Não seria exagerado da parte de Dilma e do presidente Obama anunciar a meta de dobrar o montante do intercâmbio comercial entre os dois países nos próximos oito a dez anos - e também propor algumas metas de investimento. Não existe segredo quanto ao que é necessário para cumprir essas metas.

As extensas barreiras erguidas pelo Brasil, incluindo as tarifas, os numerosos subsídios para produtores domésticos e restrições de conteúdo locais terão de ser abrandadas. Grande parte da estrutura portuária do país deve ser melhorada e é notório que a burocracia e as complicações administrativas têm de ser resolvidas.

O Brasil deveria também ser claro sobre o que deseja dos Estados Unidos no que diz respeito, por exemplo, à redução das barreiras às importações agrícolas que há muito tempo são um obstáculo a qualquer acordo comercial entre os dois países e a uma cooperação tecnológica mais ampla. Uma inspiração talvez sejam os termos dos acordos negociados recentemente com a Índia.

Certamente será exigido mais do Brasil uma vez que sua economia é mais fechada e protegida e suas necessidades, mais urgentes. Mas o Brasil também deve ganhar mais com isso. As medidas que adotar para incrementar o comércio e os investimentos dos Estados Unidos devem fortalecer seu comércio em todo o mundo.

Laços políticos. Além da economia e do comércio, Dilma deveria buscar um acordo com Obama pelo qual os dois governos se comprometeriam a manter um contato mais rotineiro e eficaz no tocante a assuntos regionais e globais importantes.

O governo brasileiro, por exemplo, seguramente deveria ter sido consultado antes de os Estados Unidos decretarem sanções contra um grupo de autoridades venezuelanas - o que acabou se tornando um enorme erro porque os Estados Unidos publicamente qualificaram a Venezuela como ameaça à segurança do país.

Claro que o Brasil não teria dissuadido os Estados Unidos de impor as sanções contra os chavistas. Mas o governo americano estaria mais bem preparado para a furiosa reação de Caracas após o anúncio da medida.

Diante do antigo e estreito relacionamento mantido com a ilha, o Brasil poderia ser muito útil para fazer avançar os esforços de reconciliação entre Estados Unidos e Cuba. Além disso, os Estados Unidos e o Brasil há algum tempo se preocupam com o desempenho medíocre da Organização dos Estados Americanos (OEA).

Em vez de ignorar a instituição, no entanto, eles deveriam se consultar e trocar ideias para reformular a OEA e torná-la um organismo mais eficaz.

Dilma também deveria considerar propor que os dois países regularmente, em reuniões de alto nível, troquem ideias sobre assuntos regionais e globais. Afinal, não obstante a desaceleração econômica e problemas de governança, o Brasil provavelmente continua um protagonista internacional influente.

Cenário global. A cooperação com os Estados Unidos no plano internacional deverá ser mais complicada, já que os países discordam a respeito de assuntos globais cruciais e às vezes se chocam abertamente.

Os Estados Unidos raramente viram no Brasil um parceiro ou aliado importante nos assuntos mundiais. Mas têm de a admitir a posição global desse País, particularmente porque isso proporcionará às duas nações um mecanismo para evitar surpresas e impedir novos choques potenciais.

Essas sugestões não exaurem a agenda da reunião de Dilma com o presidente Obama em Washington. Existem muitas outras ideias que poderiam ser avançadas. Mas o foco deve ser mantido principalmente nos objetivos de mais curto prazo que atendam aos interesses das duas nações e possam ser efetivamente realizados.

Os dois presidentes necessitam reforçar as linhas de comunicação entre os seus países, estabelecer uma nova direção, mais positiva e cooperativa para seu relacionamento, criar vínculos econômicos mais robustos e começar a desenvolver alguns temas de maior amplitude que, no decorrer do tempo, irão se traduzir numa colaboração mais vigorosa. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

* É presidente emérito do Diálogo Interamericano 

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