Mensagem de Pyongyang

Convite a acadêmico buscaria mostrar aos EUA que a Coreia do Norte já domina o enriquecimento de urânio

Julian Borger / THE GUARDIAN, O Estado de S.Paulo

23 de novembro de 2010 | 00h00

A Coreia do Norte não oferece visitas guiadas às suas instalações nucleares mais sensíveis a acadêmicos americanos. Siegried Hecker visitou o complexo nuclear norte-coreano de Yongbyon, não por causa de um repentino espírito de abertura dos norte-coreanos, mas para enviar esta mensagem a Washington: não só estamos enriquecendo urânio, como somos especialistas nisso.

Siegried Hecker, que dirigiu o laboratório de armas nucleares dos Estados Unidos em Los Alamos, visitou a nova usina de enriquecimento de urânio e ficou boquiaberto. A política de sanções e a recusa a uma retomada de conversações com a Coreia do Norte enquanto o governo de Pyongyang não suspender seu programa nuclear não estão funcionando.

A Coreia do Norte mostrou-se extremamente hábil em blefar nesse jogo nuclear. Provocou três crises anteriormente, ao aumentar as apostas nas conversações entre seis partes - as duas Coreias, China, Japão, Rússia e EUA - e obter mais promessas de ajuda econômica e fornecimento de óleo combustível. Esses novos fatos sugerem que, independente da saúde do líder norte-coreano, Kim Jong-il, o regime não perde seu gosto pelo jogo político arriscado.

O relatório elaborado pelo especialista americano oferece muita coisa para Washington pensar a respeito. Primeiro, apesar das alegações de que tudo o que Hecker viu é de fabricação doméstica, ficou claro que a Coreia do Norte tem conseguido adquirir os equipamentos que necessita.

E, na verdade, o Instituto de Ciências e Segurança Internacional, em Washington, há um mês já observou a existência dessas instalações de enriquecimento de urânio. O segundo elemento assombroso é a velocidade com que essa usina de enriquecimento de 2 mil centrífugas foi construída. Há um ano ela não existia. O que é bastante inusitado, pois obter centrífugas de alta velocidade precisas para trabalhar de modo consistente e alinhá-las em "cascatas" de 300 máquinas normalmente leva anos.

"Há algo anormal nessa rapidez com que ela foi construída", disse David Albright, diretor do Institute for Science and International Security (Isis), que divulgou imagens de satélite do local. "E isso nos leva a questionar se essa usina foi originalmente montada em algum lugar e transferida para Yongbyon, ou se há uma usina paralela em outra parte."

Para Albright, uma terceira razão de preocupação internacional é o fato de essa sofisticada central que abriga as centrífugas só ter sido detectada depois que os norte-coreanos a revelaram para Hecker.

"Isso mostra como essas usinas são de difícil localização", disse ele, acrescentando que isso tem implicações no caso do Irã, onde, de acordo com algumas agências de inteligência ocidentais, o governo prossegue com seu projeto secreto de enriquecimento de urânio paralelamente ao programa de conhecimento público. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É JORNALISTA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.