REUTERS/Marko Djurica
REUTERS/Marko Djurica

Mensagem de uma refugiada síria à União Europeia

Fugimos da guerra em busca de segurança. Por que a Europa está tornando as nossas vidas ainda mais miseráveis?

Laila / THE NEW YORK TIMES, O Estado de S. Paulo

02 Abril 2016 | 05h00

Quando chegamos aqui, tínhamos dinheiro para comprar um pouco de comida. Agora, acabou. Ficamos na fila durante horas por um sanduíche. Recentemente, meu marido disse a um jornalista: “As pessoas não aguentam mais. Talvez amanhã consigam derrubar o portão e atravessar a fronteira em massa”.

O jornalista perguntou: “Quantas armas vocês têm?” Se nós soubéssemos como levar armas – ou quiséssemos carregar armas – não teríamos fugido da Síria. Nós queremos paz. Estamos cansados de matanças.

Fugimos da guerra e agora a União Europeia está movendo uma guerra contra nós, uma guerra psicológica. Quando ouvimos dizer que nos permitiriam ficar na Europa, comemoramos. Esses líderes nos deram uma nova esperança e agora eles a tiram de nós. Por que vocês abriram a porta para os refugiados? Por que acolheram as pessoas? Se a fechassem antes, não teríamos vindo. Não teríamos arriscado a vida eu, meus filhos e milhares de outros para fazer a travessia.

Tenho 39 anos e sou curda, da cidade de Hasakah. Pelas notícias, sabia que Hasakah estava sendo ameaçada pelo Estado Islâmico (EI). Diariamente, no ano passado, o governo bombardeou os arredores da cidade. Às vezes, uma bomba perdida caía perto de nós.

Um dia, às 5 da manhã, o bombardeio começou e soubemos que o EI tinha chegado. Peguei meus filhos, duas sacolas e fugi. Naqueles dias, todo mundo tinha duas sacolas prontas o tempo todo: uma com documentos importantes e a outra com roupas e coisas essenciais. Fugimos correndo pelo leito seco de um rio. Ainda havia lama e os pés afundavam até o tornozelo.

Antes mesmo da chegada do EI, a vida sob as forças curdas era muito difícil. Não havia lenha para queimar. Uma vez, disse a meu marido: “Se a gente pegasse uma das vigas do telhado para pôr no fogão e deixássemos outra, você acha que o telhado cairia?” Ele riu. “Claro”, ele disse. “Cairia e iríamos viver na rua em cima dos escombros.”

Se você tem um filho em Hasakah, hoje, ele precisa ir para a guerra. Não importa se ele é único filho ou se está estudando. Se não houver um menino, uma menina terá de ir. Alguém de cada casa precisa combater se você quiser continuar vivendo ali. As forças curdas tentaram alistar minha filha. Tive de mandá-la às escondidas para a Turquia.

Jornada. A maior parte da minha família está na Alemanha, então, resolvi ir para lá. Ficamos dois meses num lugar na fronteira antes de fugir para a Turquia, onde meu marido estava trabalhando. Encontramos um contrabandista no Facebook – um parente distante – e fomos para Izmir. Dois dias mais tarde, nos encontrávamos no escuro com outras 35 pessoas em algum ponto da costa turca.

Éramos as últimas pessoas na praia – minha filha, seu marido, o filhinho deles e eu. Minha filha soluçava. Ela disse que não queria ir e se ela morresse, a culpa ficaria enrolada no meu pescoço. Eu não sabia o que fazer. Então, como um sonho, veio um jovem e a colocou num barco com a criança. Fiquei sozinha na praia. Entrei na água e fui caminhando até o barco. Os contrabandistas me ergueram e meu sobrinho me puxou para dentro.

No dia em que chegamos a Idomeni, as pessoas ainda estavam cruzando a fronteira para a Macedônia. Achamos que tínhamos chegado. Pensamos que a parte pior tinha sido a travessia no mar. Um ditado árabe diz: “Até o Paraíso é insuportável sem gente”.

Famílias. Tenho três irmãs e três irmãos na Alemanha. A União Europeia quer que continuemos divididos num país e em outro. Se aceitarmos o programa de alocação e a UE nos enviar para um país europeu e conseguirmos a cidadania, poderemos nos reunir à nossa família na Alemanha? Tenho medo que eles mudem as leis e não possamos ir nem mesmo depois disso.

No nosso país nos recusamos a viver separados. Vamos aceitar aqui? Todas as pessoas em Idomeni só querem se reunir com suas famílias, do contrário, não teriam empreendido uma viagem tão perigosa para se reunirem aos seus. Na barraca vizinha, há duas mulheres que não veem os maridos há dois anos.

Os homens estão na Alemanha e não conseguiram trazer as mulheres e os filhos. Quero que todos os líderes da Europa me ouçam: se algum deles concordar em ficar separado do seu filho, ou de seu irmão, ou de sua irmã, ou de seu primo, aceitarei fazer o mesmo.

Se eles querem fazer isso conosco, devolvam-nos o que perdemos para vir até aqui e mandem-nos de volta para a Síria. Se eu quisesse viver entre estranhos, teria pedido para ir para o Canadá. Se vocês estivessem doentes, quem os ajudaria? Vocês precisam do seu irmão, de sua irmã, de sua mãe, de seu pai. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

LAILA, CABELEIREIRA FORMADA, PEDIU PARA QUE SEU SOBRENOME NÃO FOSSE REVELADO PORQUE TEME QUE A DIVULGAÇÃO DE SUA HISTÓRIA POSSA COMPROMETER SUA FAMÍLIA NA SÍRIA OU PREJUDICAR O SEU PEDIDO DE ASILO. ELA CONTOU SUA HISTÓRIA A LAURA DEAN, UMA JORNALISTA SEDIADA NO CAIRO

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