REUTERS/Jorge Adorno
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Mensagens revelam carta de intenções para empresa brasileira comprar energia de Itaipu

Segundo a imprensa paraguaia, assessor jurídico da vice-presidência mandou a diretor de estatal cópia de carta de intenções para vender energia a empresa brasileira, mais de um mês depois de assinatura de acordo vetar essa prática

Redação, O Estado de S.Paulo

02 de agosto de 2019 | 18h05

ASSUNÇÃO - A imprensa do Paraguai divulgou nesta sexta-feira, 2, novas mensagens de celular atribuídas a Pedro Ferreira, ex-presidente da estatal elétrica Ande, e o advogado José Rodríguez González, assessor jurídico da vice-presidência do Paraguai. 

Elas mostram o envio de uma carta de intenções ao empresário Alexandre Giordano, suplente do senador Major Olímpio (PSL-SP) para comprar energia da Ande despachada depois de que o item que permitiria a venda de energia excedente de Itaipu a empresas brasileiras foi retirado do acordo. 

Giordano reconhece ter participado de uma reunião no Paraguai com a Ande ao lado de um representante da Léros, mas para tratar do interesse de um leilão de energia elétrica aberto pela estatal paraguaia. 

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A carta de intenções enviada ao suplente de senador, segundo as mensagens obtidas pela imprensa paraguaia, data de 12 de julho, um mês e meio depois da assinatura do acordo entre Brasil e Paraguai que impediu que a Ande vendesse energia excedente de Itaipu a empresas brasileiras.

O pacote, enviado pelo correio, tem como remetente uma pessoa identificada como Nicolás Martins Koc Pinto. Ela vem endereçada da Rambla Gandhi 221, em Assunção – um endereço que não existe na capital paraguaia, mas sim em Montevidéu, no Uruguai

 

Ao Estado, Giordano disse que não se recorda da carta enviada por Koc ao endereço onde funciona seu escritório, na zona norte de São Paulo, e voltou a negar qualquer relação da sua ida ao Paraguai com o retirada da cláusula do acordo bilateral. "Isso deve ser uma briga política deles. Não tenho nenhuma relação com esse acordo. A Léros me chamou e eu fui lá escutar a proposta da Ande sobre vende de energia. Existe uma licitação aberta, que é pública. Eu não comprei nada. A própria Léros não assinou nada", afirmou. 

Giordano também negou ter se apresentado como senador e usado o nome do presidente Jair Bolsonaro na reunião com diretores da Ande. Ele é dono de empresas de mineração, terraplenagem e instalação de materiais metálicos usados em torres de energia e se diz fornecedor da Léros, que é geradora e comercializadora de energia no Brasil. A reportagem tentou contato com Kléber Ferreira, sócio da Léros, mas ele não atendeu as ligações.

Mensagens mostram pressão para tirar cláusula de acordo

Nas mensagens trocadas entre o presidente da Ande e o assessor jurídico, González volta a apresentar Giordano, como um “representante da família do “alto governo do Brasil”. As mensagens também revelam como o advogado pressionou a Ande para abandonar essa cláusula em meio a uma negociação com a Leros. 

De acordo com o canal de TV paraguaio NPY, no começo de maio, González abordou Ferreira usando o nome do vice-presidente Hugo Velásquez e da família de Bolsonaro para conseguir uma reunião entre a Ande e um enviado da Leros. 

Em 17 de maio, uma semana antes da assinatura da ata sobre Itaipu, González revela ao presidente da Ande o interesse da Leros em contratar energia paraguaia. Àquela altura, o acordo vigente ainda proibia a venda de energia excedente de Itaipu para pessoas jurídicas sem autorização da Eletrobrás

González então menciona que, na comitiva brasileira, estaria um representante da família Bolsonaro, em referência a Giordano.  Ao Estado, no entanto, o empresário brasileiro disse ser apenas um parceiro da Leros e nunca ter tido relação com Jair Bolsonaro, nem com a família do presidente, apesar de ser filiado ao PSL

 

Projeto piloto previa venda de energia

No momento em que a reunião aconteceu, o novo acordo – que à época ainda continha um cláusula que permitiria ao Paraguai vender a energia excedente para empresas no Brasil – estava na iminência de ser assinado. 

Por isso, segundo o presidente interino da Ande, Fabián Cáceres, estava em estudo um projeto piloto para a venda, em pequenas quantidades,  dessa energia excedente para empresas. Foi esse projeto, dizem ele e Giordano, que teria sido apresentado a Leros. 

González, no entanto, pediu a diretores da Andes a exclusão dessa mesma cláusula porque ela poderia prejudicar a negociação com a Leros. Na mensagem, ele insinua o interesse do governo brasileiro – algo que não foi provado até agora. 

‘Manejar com prudência a informação’

 “Em conversações com o mais alto mando do país vizinho, se concluiu que (o item 6) não era o mais favorável”, diz González. “Temos que manejar com prudência a informação.”

O que ainda não está claro é se o interesse da Leros no projeto piloto era legítimo, qual o motivo de González dizer que a liberação da venda para empresas brasileiras prejudicaria a negociação. Nas mensagens, o ex-diretor da Ande ressalta que não pode haver exclusividade na venda de energia à Leros. 

O acordo foi assinado, já sem o item seis, em 24 de maio, como queria González. Em 12 julho, a carta de intenções à Leros foi enviada. Duas semana depois, no final de julho, o acordo que provocaria a crise foi divulgado pela imprensa. / Com Fabio Leite e Luiz Raatz

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