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Mentor de atentados estaria na Síria; polícia busca 8º suspeito

Jihadista de 28 anos é apontado como mentor dos ataques; outro terrorista é procurado após cruzar fronteir

Jamil Chade, ENVIADO ESPECIAL / BRUXELAS, O Estado de S. Paulo

16 de novembro de 2015 | 22h42

As polícias da Bélgica e da França identificaram o suspeito de ser o cérebro dos ataques terroristas de sexta-feira em Paris, que deixaram 129 mortos: trata-se de Abdelhamid Abaaoud, de 28 anos. Nascido em Molenbeek, bairro na periferia de Bruxelas, com um histórico de boas notas na escola e namorador, hoje Abaaoud atua na Síria.

O jovem de origem marroquina passou a ser considerado nos últimos meses o principal responsável por recrutar europeus para lutar na Síria em nome do Estado Islâmico (EI). Abaaoud teria “organizado e financiado” os atentados, segundo investigadores belgas.

Em Bruxelas, o terrorista já foi condenado, à revelia, a 20 anos de prisão por envolvimento em outros atentados. Há poucos meses, uma célula terrorista foi desmantelada em Bruxelas, mas Abaaoud conseguiu escapar do cerco da polícia e viajou para a Síria. “Os atentados foram planejados na Síria e organizados na Bélgica”, confirmou nesta segunda-feira o presidente francês, François Hollande.

O suspeito de ser o mentor da operação fez circular em redes sociais a informação de que teria morrido na Grécia. Mas a polícia logo descobriu que as mensagens eram falsas.

Num vídeo postado no Youtube, em fevereiro, ele declara claramente sua intenção de matar. “Por toda minha vida, vi o sangue muçulmano ser derramado. Rezo para que Alá rompa as costas dos que se opõem a ele, seus soldados e admiradores e ele os extermine”, disse.

Ao Estado, a secretária de Assuntos Sociais de Molenbeek, Sarah Turine, disse que conhecia bem a família dele. “Os pais deram tudo a ele. Era um garoto normal, que tinha boas notas e foi transferido para uma escola chique de Bruxelas. Seus pais investiram muito nele. Hoje, estão destruídos”, disse. “Ninguém entende. Era namorador, gostava da vida”, contou.

Mas seu radicalismo chamou a atenção de muitos, principalmente após levar seu irmão de 13 anos para lutar na Síria. O garoto frequentava a mesma classe que um dos filhos de Sarah. “Ele não queria ir para a Síria. Foi sequestrado pelo irmão mais velho.”

Em entrevista em fevereiro à revista Dabiq, editada por simpatizantes do EI, ele indicou que planejava um “golpe”. O mentor usava seu nome de guerra, Abu Umar Al Baljiki, e indicou que a Bélgica fazia parte da “coalizão que lidera uma cruzada contra muçulmanos”. Em janeiro, uma célula mantida por ele em Verviers foi desmantelada e dois jihadistas foram mortos.

Na entrevista, ele conta como conseguiu por alguns meses voltar para a Europa, de onde teria “comprado armas e preparado ataques”. Ele ainda relata que um policial o parou e o comparou com uma foto sua nos sistemas de inteligência. “Mas ele não achou que eu era quem ele buscava. Isso foi um presente de Alá”, disse.

As autoridades continuavam ontem buscando o oitavo suspeito dos atentados, Abdeslam Salah, que conseguiu fugir. Seu irmão, Ibrahim, foi um dos que atacaram os restaurantes em Paris e se suicidaram. Outro irmão, Mohamed, que tinha sido preso no fim de semana na Bélgica com outras seis pessoas, foi solto nesta segunda-feira.

Os cinco terroristas identificados até o momento passaram por campos de treinamento na Síria. A conclusão leva em conta as identidades de Abdeslam Salah e de seu irmão Ibrahim, Omar Ismael Mostefai e Samy Aminour, que atacaram a casa de shows Bataclan, e Bilal Hadfi e Ahmad Al-Mohammad, que se suicidaram no Stade de France.

Segundo o jornal belga Le Soir, interceptações mostram que Abdeslam telefonou para dois amigos na noite de sexta-feira em Bruxelas, apelando para que o fossem buscar de carro em Paris. “Pago o pedágio e a gasolina”, suplicou. Os cúmplices estavam em um bar da família Saleh. Quem decidiu ir buscá-lo foi Mohamed Amri.

Naquele momento, seu nome fazia parte apenas da lista de “radicais” mantida pelo governo belga. Ao voltar pela estrada, ele foi parado por policiais franceses, mas seu nome não constava, até aquele instante, de nenhuma lista das autoridades da França. O que ninguém sabe é por que Abdeslam não acionou seu cinturão-bomba como o irmão e os outros terroristas.

Uma operação policial ocorreu nesta segunda-feira em Molenbeek em busca de Abdeslam, acompanha pela reportagem do Estado. Explosões foram ouvidas na rua esvaziada. Mas a polícia garantiu que não foram tiros, e sim alertas lançados, além de bombas para abrir alguns dos locais onde havia a suspeita de que ele poderia estar.

Pelo menos uma pessoa foi detida e saiu retirada pela polícia escondida por uma máscara negra. Mas o fugitivo ainda não foi encontrado. 

O local buscado era um antigo bar mantido por um dos irmãos Salah. “Algum tempo depois de o bar abrir, foi descoberto que se tratava de um ponto de tráfico de drogas e logo foi fechado em 2014”, contou Sarah. Meses depois do incidente, o terrorista procurou a prefeitura para pedir um emprego, o que lhe foi recusado.

O nome de Abdeslam foi descoberto por conta de um carro usado pelos terroristas na casa de shows Bataclan e que foi alugado em seu nome. Com outro veículo, o suspeito conseguiu cruzar a fronteira da França com a Bélgica e o novo carro acabou sendo encontrado em Molenbeek, no dia seguinte. Mas o terrorista já havia desaparecido e passou a ser apontado como “o inimigo número 1 da Bélgica”. 

No alerta para sua prisão difundido pela polícia, Abdeslam é apontado como “muito perigoso”. Mas em terceiro irmão da família, Mohamed, garante que seu irmão é "totalmente normal". "Não sabemos onde ele está. Com a atual tensão, não acho que ele vai se entregar. Mas ele cresceu aqui e estudou aqui. Trata-se de um garoto totalmente normal", repetiu. 

Funcionário da prefeitura, Mohamed garantiu que "não reparou nenhum comportamento estranho" por parte dos dois irmãos terroristas. "Absolutamente nada. Dois irmãos normais", insistiu. "Não sabemos o que ocorreu. Temos uma família aberta e meus pais estão traumatizados." 

A mulher de Ibrahim, morto no atentado, e uma de suas irmãs chegaram a sair da casa e foram seguidas por um batalhão de jornalistas, enquanto cobriam suas cabeças. Moradores do local ameaçaram a imprensa por tentar filmar os parentes dos terroristas. "Aqui é Molenbeek, cuidado", gritou um morador. 

Mohamed também se defendeu: "Nunca tive problema com ninguém. Sou empregado da prefeitura e isso já faz dez anos”, contou. “Muita gente me conhece aqui e sabe do que eu sou capaz e do que eu não sou capaz”, insistiu. Mohamed garantiu que tinha um álibi e, por isso, a Justiça decidiu liberá-lo. “Existiam muitos poucos elementos para me reter por um longo tempo”, disse.

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