Mercado a ser explorado

Apesar de aproximação diplomática, negócios EUA-Cuba vêm caindo, pois sanções impedem exportações financiadas à ilha

Nick Miroff, Washington Post

02 de agosto de 2015 | 18h27

Em países de todo o mundo onde os EUA têm embaixada, diplomatas americanos promovem o comércio e ajudam companhias americanas que querem fazer contatos comerciais. Agora, os EUA têm uma embaixada em Cuba, mas também um embargo comercial contra a ilha. Isso coloca as autoridades americanas em Havana num terreno complexo e não desbravado.

Os EUA e Cuba têm novamente relações diplomáticas normais, mas suas relações econômicas e políticas são tudo menos isso. Apesar de a maioria das formas de comércio americano ainda estar vetada pelo embargo de 54 anos, um número limitado, mas crescente, de empresas americanas, como exportadores de alimentos e empresas de tecnologia, está autorizado a fazer negócios na ilha.

O site de aluguel de acomodações para férias Airbnb somou mais de 2 mil cubanos a seu catalogo este ano. Companhias de balsas e operadores de navios de cruzeiro fazem fila para invadir os portos de Cuba. Alguns consumidores da ilha estão assinando o Netflix. No entanto, muitas empresas americanas que poderiam ser autorizadas pelo afrouxamento das restrições determinado pelo presidente Barack Obama ainda enfrentam obstáculos regulatórios assustadores - para não falar de uma economia estatal opaca em Cuba, que não é lugar para principiantes.

“Como um pequeno exportador para Cuba, eu gostaria de trabalhar com o pessoal da embaixada que pudesse ajudar a transpor os obstáculos comerciais dentro de Cuba”, disse Paul Johnson, presidente da Chicago Foods International e copresidente da Coalizão Americana de Agricultura para Cuba, grupo contrário ao embargo.

Johnson e outros dizem que estão buscando orientação sobre o cumprimento das normas e também ajuda para o estabelecimento de redes de contatos. A embaixada americana pode fazer isso em Cuba, ao menos em teoria. No entanto, práticas como contactar empresas estatais cubanas em nome de empresas americanas, ainda são território estranho para autoridades americanas. “Não nos envolvemos aqui em Cuba em questões comerciais há muitíssimo tempo”, disse um funcionário americano na condição de anonimato. “Mas, certamente, queremos ser úteis para americanos que estão precisando de ajuda.” A autoridade, porém, advertiu: “Estamos apenas no começo do processo”.

Obama pediu ao Congresso americano que levante o embargo, argumentando que a ampliação do comércio e a multiplicação das viagens de cidadãos americanos farão mais para mudar o sistema comunista de partido único da ilha do que sanções punitivas. O grande prédio diplomático americano no malecón de Havana - completado em 1953 - voltou a ser formalmente uma embaixada no dia 20, mais de meio século após as relações serem cortadas.

No entanto, outros aspectos para fazer a embaixada operar como as missões diplomáticas americanas em outras partes do mundo levarão tempo, segundo autoridades. Uma das questões mais sensíveis envolve o apoio de Washington a adversários do sistema de partido único do governo cubano. Cuba rejeita ferozmente a promoção da democracia americana, que considera “subversão”. Diplomatas americanos dizem que continuarão a apoiar os direitos humanos e “valores universais” em Cuba, mas admitem que alguns programas americanos poderão mudar assim que o papel da embaixada evoluir. Não há planos específicos para alterá-los, disse a fonte de alto escalão, mas “os programas estão sempre sendo revistos”.

Um primeiro teste virá no dia 14, quando o secretário de Estado, John Kerry, chegar para a cerimônia de hasteamento da bandeira americana diante da embaixada. A autoridade americana não pôde confirmar se dissidentes cubanos foram convidados para o evento. Funcionários do governo cubano foram convidados, mas eles tipicamente boicotam atos diplomáticos em que adversários dos Castros estão presentes.

Diplomatas americanos dizem que uma das maiores mudanças em seu papel ocorrerá fora da embaixada, quando eles puderem viajar muito mais livremente pela ilha. Eles terão de informar ao governo cubano sobre seus planos, mas não precisarão de permissão para visitar áreas fora de Havana, um arranjo que têm de obedecer em outros países que impõem condições “restritivas”.

Autoridades americanas também estão fazendo planos para ampliar os serviços consulares para americanos em Cuba, na medida em que mais e mais viajantes americanos chegarem. Uma nova iniciativa no Congresso está buscando levantar as restrições de viagens de americanos, o que aumentará dramaticamente a necessidade de serviços consulares na ilha.

Atualmente, as visitas estão restritas a viajantes que tenham família em Cuba ou que viajam com grupos autorizados, “pessoa a pessoa”, e outras formas de viagens “com propósito”. Uma possibilidade é que os EUA reabram um consulado em Santiago de Cuba, a segunda maior cidade cubana, no extremo leste da ilha.

Em decorrência da atualização do status de embaixada, os EUA pretendem enviar mais 25 funcionários americanos, mas a fonte de alto escalão disse que esse número poderá aumentar se agências federais como o FBI (polícia federal), o Departamento de Comércio e a Agência de Combate ao Narcotráfico (DEA) colocarem adidos na embaixada, como fazem em outros países.

Cuba enviou um adido comercial a sua embaixada em Washington, uma medida que Johnson, o exportador de alimentos de Chicago, disse que foi “extremamente útil”. O adido deve se concentrar em identificar oportunidades de negócios e promover a participação de empresas americanas em eventos e feiras comerciais cubanas com o objetivo de aumentar o apoio ao fim das sanções americanas. Apesar do degelo diplomático, o comércio entre os EUA e Cuba vem encolhendo nos últimos anos.

Johnson disse que sua empresa vende alimentos para Cuba desde 2009, numa média de mais de US$ 1 bilhão em vendas brutas anuais, mas os negócios caíram drasticamente” nos últimos 18 meses. As sanções não permitem exportações financiadas para Cuba e Johnson disse que ele e outras empresas americanas estão perdendo para competidores estrangeiros que podem oferecer financiamento.

Em 2008, Cuba importou mais de US$ 700 milhões de bens americanos, em grande parte alimentos, mas esse número diminui desde então e deve cair para US$ 166 milhões este ano, segundo o Conselho Comercial e Econômico EUA-Cuba, com base em Nova York. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

*NICK MIROFF É JORNALISTA

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