Divulgação / Médicos Sem Fronteiras
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Mercado de escravos

Em pleno 2017, homens, mulheres e crianças são vendidos em público na Líbia

Gilles Lapouge, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

25 Novembro 2017 | 05h00

Uma simples foto pode trazer à luz um drama que o mundo ignora ou finge ignorar. Isso aconteceu em 2015, com a foto de um pequeno migrante morto numa praia da Turquia. Muitos anos antes, o mundo ficara estarrecido com a foto de uma menina queimada por napalm, correndo nua e desesperada por uma estrada do Vietnã. Em ambos, as fotos produziram choques de realidade mais eficazes que 20 anos de conversa fiada na ONU. 

Agora, uma reportagem da rede de TV CNN nos informa que, em pleno ano da graça (ou da desgraça?) de 2017, existem na Líbia mercados de escravos nos quais homens, mulheres e crianças são vendidos em público.

Esse comércio vergonhoso só foi abolido no Brasil em outubro de 1888. Mas a lentidão foi ainda maior na África: a Mauritânia só acabou (oficialmente) com a infâmia em 1981. Mauritânia e Líbia são países situados em parte no Saara, o mais vasto deserto quente do mundo, um território infinito de areia e pedras que separa e liga o Magreb (Marrocos, Tunísia, Argélia, Líbia) e a África negra.

Como a foto da garotinha vítima do napalm nos confins do Vietnã, as imagens da CNN arrancaram de uma longa sesta essa gente solene que, na ONU, nas capitais, nas chancelarias, tem em mãos o destino de mundo. O francês Emmanuel Macron trovejou sua indignação. O secretário-geral da ONU, horrorizado, fustigou a União Europeia e a União Africana. 

A cólera aquece a alma. Certamente existe no fundo desses corações entorpecidos uma fibra moral ainda intacta. O estranho é que eles não se tenham indignado antes, pois é um segredo de polichinelo que a Líbia voltou a ter um comércio de escravos desde que esse país infeliz foi quebrado em três por Nicolas Sarkozy.

Admitindo-se que os ocidentais nada soubessem antes da reportagem da CNN, os diplomatas europeus e americanos, vindos de escolas de elite, no mínimo não podiam ignorar que a escravidão nos países do Magreb foi durante séculos uma indústria pujante. 

Aprendemos na escola a história do tráfico de negros entre a África e o continente americano. Mas ignoramos, propositalmente ou não, a outra grande rota da escravidão, a que abastece, com o passo lento dos dromedários, outros mercados de farrapos humanos. Por essa rota são vendidas muito menos pessoas que pelo comércio triangular entre a Europa, a África e a América. São milhares de homens, mulheres e crianças a cada ano. Mas, como o tráfico através do Saara existe há muito mais tempo, o resultado é sinistro. 

Historiadores calculam que 10 milhões de seres humanos africanos foram arrancados de sua terra natal, de sua tribo, de sua família, de sua dignidade, entre a Antiguidade romana e o século 19. Note-se: assim como muitos escravos morriam nos navios negreiros na viagem entre a África e a América, o número de mortes nas caravanas transaarianas era assustador: 20% dos escravizados morriam. 

Quem eram as vítimas dessas caravanas da morte? Difícil dizer, pois a composição dos comboios decorria da geopolítica de cada período da história. A grande maioria era de negros tirados das regiões subsaarianas e vendidos no Magreb. 

Moral: se os políticos e seus embaixadores conhecessem um pouco de história, há muito deveriam ter voltado a atenção para esse tráfico. Mas eles parecem ignorar a história, um pouco como as estrelas continuam a brilhar a nossos olhos muito depois de mortas. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

 

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