New York Times
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Mercado negro, um eixo da vida cubana

Enquanto cidadão vive de bicos, funcionários do Estado completam renda com contrabando

Cláudia Trevisan - Enviada Especial / Havana , O Estado de S. Paulo

12 Dezembro 2016 | 05h00

Duas vezes por semana, a família Hernández recebe a visita de María, que leva na bolsa leite, queijo e presunto desviados de fábricas estatais localizadas nas imediações de Havana. María tem uma rede de clientes na capital e vende os produtos a preços mais baixos que os praticados nos supermercados controlados pelo governo, onde 1 kg de leite em pó custa US$ 6 (R$ 20). O que ela entrega sai pela metade do valor.

O roubo e revenda de produtos do Estado é um dos pilares que sustentam a economia subterrânea de Cuba, na qual funcionários públicos complementam seu salário irrisório e consumidores têm acesso a bens que são caros ou inexistentes nos canais oficiais. María (nome fictício) não dá detalhes de como obtém os produtos nem como passa pelas barreiras policiais que tentam impedir moradores do campo ou de outras cidades de venderem alimentos em Havana de maneira ilegal. Mas isso seria impossível sem a conivência de funcionários das estatais e de policiais, que se tornam “sócios” de seu empreendimento por meio do pagamento de suborno ou divisão do lucro.

O mercado negro é onipresente em Cuba e abrange virtualmente todos os produtos, de alimentos a combustíveis. Como muitos dos que se engajam na atividade, María é funcionária do Estado e ganha cerca de 500 pesos cubanos ao mês, o equivalente a US$ 20 (R$ 68). Mas cada vez mais seus gastos são em CUCs, a moeda conversível que é cotada em aproximadamente US$ 1. Para ela e milhares de outros cubanos, o roubo e revenda de bens do governo é o único caminho para complementar sua renda.

Caderneta. Os que têm filhos de até 7 anos podem comprar leite por alguns centavos de dólar na caderneta de racionamento do governo, na qual os preços são subsidiados. Mas os demais têm de ir ao mercado negro ou pagar os US$ 6 dos supermercados oficiais, valor que representa quase um terço do salário mensal médio dos cubanos.

“Todo mundo é obrigado a realizar algum tipo de atividade ilegal para sobreviver”, disse Eduardo, que trabalha como motorista particular, apesar de não ter licença do Estado para oferecer o serviço. O uso de TV por satélite é proibido em Cuba, mas um de seus vizinhos comprou o equipamento e vende “assinaturas” por 10 CUCs (R$ 34) mensais. Um de seus clientes é Eduardo, que tem acesso a quatro canais estrangeiros: Univisión e Telemundo, voltados para a comunidade latina nos EUA, um de esportes e outro de filmes.

A poucos passos da loja estatal que vende charutos em Havana, homens oferecem o produto por quase a metade do preço. Os potenciais clientes são levados para o lado de trás da quadra, onde podem escolher entre Coibas e Montecristos com selos oficiais do Estado, sem os quais a mercadoria não pode sair de Cuba.

“A maneira pela qual o sistema é organizado transforma todo mundo em criminoso. Para sobreviver, você precisa comprar ou vender no mercado negro e depender de atalhos que são tecnicamente ilegais, mas são tolerados”, disse Ted Henken, especialista em América Latina do Baruch College de Nova York e um dos autores do livro Intrepreneurial Cuba (Cuba Empreendedora). 

Moedas. Entre os fatores que dão origem ao fenômeno está a distorção criada pela existência de duas moedas: o peso cubano, no qual é paga a maioria dos salários, e o peso conversível, ou CUC, que vale 25 vezes mais e dita os preços de uma fatia cada vez maior da economia. 

“As pessoas precisam de CUCs para sobreviver”, observou Archibald Ritter, professor da Universidade Carlenton, no Canadá, e coautor do livro. “Alguns conseguem acesso à moeda graças a remessas de parentes que vivem no exterior, mas a necessidade desesperada de pesos conversíveis obriga muitos a realizar atividades ilegais para ter acesso a CUCs.”

Em estudo publicado no ano passado, Ritter apresentou uma longa lista dos caminhos encontrados pelos cubanos para complementar sua renda. Trabalhadores de restaurantes estatais reduzem os ingredientes dos pratos e usam o que economizam na elaboração de produtos que são vendidos no mercado negro. O motorista de um caminhão do governo retira gasolina do veículo e a vende de maneira clandestina. Um garçom serve rum de baixa qualidade comprado com peso cubano, mas cobra como se fosse um produto de qualidade cotado em CUCs e vende a bebida sonegada no mercado negro. 

O tamanho da economia subterrânea diminuiu desde o início desta década, quando o governo aumentou o espaço de atuação de pequenas empresas. Ainda assim, ela continua a ser enorme, em um sistema de interdependência entre a economia estatal, a privada e a subterrânea. 

 

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