Mercados turcos caem com decisão parlamentar contra os EUA

A bolsa de valores da Turquia sofreu uma queda de mais de 10% hoje, em meio a temores de que o país vá perder um pacote de ajuda de bilhões de dólares depois de o parlamento não ter autorizado a entrada de 62.000 militares dos EUA. O primeiro-ministro Abdullah Gul recusou-se a dizer hoje se o governo irá reapresentar ao parlamento a moção que permitiria a entrada dos militares dos EUA, em preparação para uma possível guerra no Iraque. "Estamos analisando a situação e vamos ver o que ocorrerá nos próximos dias", explicou Gul numa entrevista coletiva. O governo não conseguiu juntar apoio suficiente entre os parlamentares de seu partido, no sábado, para aprovar a moção. A decisão do parlamento irritou Washington e coloca seriamente em risco planos dos EUA de abrir uma frente setentrional contra o Iraque, uma parte crucial na estratégia de guerra americana. Um líder do governista Partido da Justiça e do Desenvolvimento, Eyup Fatsa, adiantou no domingo que uma nova votação não deve ocorrer "num futuro próximo". Mas o ministro do Exterior, Yasar Yakis, deixou aparentemente uma porta aberta para a votação. Perguntado se a matéria seria colocada novamente na agenda esta semana, ele respondeu: "O processo (de avaliação) será completado, então ela será". Ele não entrou em detalhes. Gul estará fora do país até quarta-feira, participando de uma reunião da Conferência da Organização Islâmica, provavelmente adiando qualquer votação até pelo menos quinta-feira. A votação de sábado pode ter significado o fim de um pacote de ajuda e de empréstimos de US$ 15 bilhões, prometido por Washington para compensar a Turquia por perdas advindas de uma guerra. Os mercados turcos contavam com o dinheiro para animar a cambaleante economia do país, e a bolsa de valores registrou uma queda, hoje, de 12,5%. A lira turca chegou a perder cerca de 5% de seu valor, sendo cotada a 1.670,000 por dólar, mas recuperou-se quando o Banco Central anunciou que iria intervir se fosse necessário, fechando a 1.643,000. Economistas esperam que os mercados continuem a cair, mas num ritmo mais lento. "Se virmos qualquer declaração positiva e convincente do governo em relação à autorização e se os EUA continuarem pacientes, acho que existe uma chance de os mercados se recuperarem", opinou Tevfik Aksoy, do Global Securities. Gul tentou acalmar os mercados, dizendo que a Turquia não terá dificuldade para pagar o serviço de sua grande dívida externa, mesmo se não houver o pacote de ajuda prometido pelos EUA. Vários jornais divulgaram hoje que a moção não deve ser novamente submetida ao parlamento antes da eleição complementar de domingo. O líder do Partido da Justiça, Recep Tayyip Erdogan, deve ser eleito para o parlamento na eleição complementar, o que permitiria que ele se tornasse primeiro-ministro. Ao formar um novo gabinete, ele poderia expurgar do atual governo ministros que se opõem à moção, e então a reapresentaria. Esse processo poderia postergar a aprovação de uma nova moção até 17 de março, segundo o diário Sabah, permitindo que a Turquia esperasse uma decisão no Conselho de Segurança da ONU sobre uma segunda resolução sobre o Iraque. O partido governista, com raiz islâmica, está em profunda crise, dividido entre a oposição popular à guerra e temores de danos duradouros nas relações históricas com Washington.

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