Mercenários ficam após tropas saírem

Acordo para retirada militar americana ignora ação dos 190 mil ?soldados privados?

João Paulo Charleaux, O Estadao de S.Paulo

23 de dezembro de 2008 | 00h00

Oficialmente, a retirada será total. Até dezembro de 2011, todo o contingente militar americano deverá deixar o Iraque, como determina um acordo firmado entre os dois países e aprovado pelo Parlamento iraquiano em novembro.Na prática, depois que os militares saírem, milhares de soldados pagos por empresas militares privadas - que, em muitos aspectos, assemelham-se a grupos mercenários - continuarão protegendo embaixadas, ONGs humanitárias, usinas e dutos de petróleo com homens e máquinas em quantidade e qualidade superiores às das Forças Armadas de muitos países do mundo.O texto do Pacto Sobre o Status das Forças (Sofa, em inglês) estabelecido há um mês entre os EUA e o Iraque diz que "todas as forças dos EUA devem se retirar do território iraquiano antes de 2011", mas não faz nenhuma referência à saída dos "contratados pelos EUA", definidos pelo próprio Sofa como pessoas que "estão no Iraque para fornecer segurança", entre outros serviços.De acordo com as estimativas mais conservadoras, as empresas militares privadas respondem atualmente pelo segundo maior efetivo no Iraque, atrás apenas das Forças Armadas americanas.Mas ninguém sabe ao certo quantos desses soldados particulares atuam no país. A confusão é tanta que, em abril de 2004, o Congresso dos EUA pediu à Autoridade Provisória no Iraque a lista completa dessas empresas. Foi dado um prazo de seis meses para que todas elas se cadastrassem, mas menos de 50 o fizeram.O jornalista americano Jeremy Scahill, autor do livro Blackwater - A Ascensão do Exército Mercenário Mais Poderoso do Mundo calcula que haja atualmente 190 mil soldados privados, mais do que os 146 mil militares das forças regulares americanas no Iraque. Também "existem mais de 300 companhias mercenárias contratadas pelo governo dos EUA para trabalhar no Iraque. Esse número é maior do que o número de nações registradas na ONU", disse Scahill ao Estado."O Iraque foi a primeira vez que as empresas privadas de segurança foram usadas em números tão altos, nessa escala", disse Andrew Bearpark, diretor da Associação de Companhias de Segurança Privada da Grã-Bretanha. "Em todo o mundo você pode encontrar pelo menos uma agência privada de segurança trabalhando, mas nunca houve nada como o Iraque.""Essas empresas operam em todos os continentes com a única exceção da Antártida", disse Peter Singer, autor do livro Guerreiros Corporativos: O Crescimento da Indústria Militar Privada. "Na Guerra do Golfo de 1991 havia 50 militares para cada contratado, em 2003 a relação passou a ser de 10 para 1."Com a promessa de Barack Obama de fechar as prisões na Base Naval de Guantánamo em dois anos e aumentar a aposta na diplomacia em detrimento das soluções militares, muitos começaram a se perguntar sobre o destino destas companhias."Muitas empresas militares e de segurança estão se perguntando como será o futuro sob o governo do presidente Obama. Será, provavelmente, melhor do que eles imaginam", disse David Isenberg, ex-fuzileiro naval americano, analista militar e autor de dois livros sobre as empresas militares privadas.Para Scahill, "Obama tem sido muito crítico sobre essas companhias há anos, mas ele reconhece que não pode governar sem usá-las no Iraque. Ele também não apóia o banimento dessas companhias nas zonas de guerra dos EUA. Isso é perturbador."

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