Mercenários perdem espaço no 'novo' Iraque

Bagdá não renova vistos e chega a prender soldados privados, que já foram 130 mil

GUILHERME RUSSO, ENVIADO ESPECIAL / BAGDÁ, O Estado de S.Paulo

11 de junho de 2012 | 03h03

Estima-se que eles chegaram a ser 130 mil durante o período mais duro da ocupação do Iraque, entre 2003 e 2008 - aliviando a sobrecarga das forças da coalizão liderada pelos EUA que, no máximo, chegaram a ter 190 mil homens. Hoje, os "soldados privados", um eufemismo dos tempos da chamada "guerra ao terror" para o que sempre se conheceu como mercenários, não passam de alguns milhares.

Atuando nas sombras, à margem de normas impostas por Estados e convenções internacionais a militares regulares, chegaram a entrar em ações de combate contra forças insurgentes e exerciam funções de segurança de instalações sensíveis e de autoridades iraquianas e estrangeiras. Vinham principalmente da Austrália, África do Sul, França, Grã-Bretanha e EUA, sob a bandeira de empresas de segurança privada, como a Blackwater, e grande parte deles deixou o Iraque com um histórico de envolvimento em ações violentas.

Uma norma firmada em 2004 pela autoridade da ocupação americana dispôs que eles estavam "imunes a processos legais iraquianos em decorrência das ações realizadas por eles enquanto a serviço de empresas". Após a retirada dos americanos, em dezembro, Bagdá parou de renovar os vistos de trabalho desses agentes, assim como as licenças de operação dessas companhias.

Uma onda de detenções que prendeu centenas desses funcionários em janeiro deixou claro que, após se livrar da ocupação, o governo do Iraque pretende afirmar sua soberania sobre o território, mantendo o monopólio da segurança, pública e particular, nas mãos dos iraquianos. Desde março, firmas estrangeiras estão proibidas de atuar nos campos de petróleo das empresas de exploração internacionais - uma de suas principais funções.

O francês Marc, de 42 anos, que preferiu não informar seu sobrenome e desde 2004 trabalha em companhias de segurança no Iraque, explicou que, agora, essas firmas estrangeiras só podem atuar no país se tiverem como clientes embaixadas ou veículos de notícia estrangeiros.

Em seu apartamento, ao lado de um dos seis fuzis Kalashnikov que sua empresa fornece a ele e à equipe de iraquianos que ele comanda em Bagdá e com uma pistola 9 mm na cintura, o agente reclama que sua remuneração "baixou muito" nos últimos tempos.

"Durante a ocupação, eu ganhava US$ 600 por dia. Agora, ganho US$ 250. Mas não faço isso só por dinheiro. Estou no Iraque porque gosto daqui", disse. Mesmo com a drástica redução salarial, Marc ganha US$ 15 mil a cada ciclo de trabalho, que dura dois meses, normalmente. "É muito mais do que ganharia sendo segurança em meu país."

Após oito semanas de trabalho contínuo, ele tem quatro de folga não remunerada, que costuma passar em sua cidade natal, no sul da França, segundo contou.

Sem rótulos. Marc rejeita o termo mercenário para se referir à sua profissão. "Mercenários são pagos para combater, realizando ofensivas armadas. Aqui no Iraque pode acontecer de você lutar, mas apenas quando é atacado", disse, afirmando que a última vez que participou de uma ação desse tipo no país foi em 2007, em Basra, no sul, região dominada por xiitas. "Mas foi a Al-Qaeda que nos atacou."

O francês afirmou que a ação mais perigosa que participou foi em 2005. O comboio em que estava levava engenheiros a uma base nas proximidades de Faluja destruída em uma ofensiva americana no ano anterior. O líder de equipe de Marc, no mesmo carro que ele, foi morto após o veículo ser atingido por duas bombas de beira de estrada e metralhado por insurgentes da Al-Qaeda.

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