Mercenários tentam sustentar governo da Costa do Marfim

Grupos de mercenários franceses, sul-africanos e ucranianos estão sendo contratados pelo presidente da Costa do Marfim, Laurent Gbagbo, para ajudá-lo na resistência aos grupos rebeldes que pretendem afastá-lo do poder. Isso porque, oficialmente, as tropas francesas estacionados nesse país têm como missão evitar o confronto direto entre os legalistas e os rebeldes, agindo mais como uma força de interposição. Os franceses, que reforçaram nos últimos dias suas posições, alteraram também o mandato inicial, e os soldados já receberam ordens de utilizar suas armas diante de grupos rebeldes cada vez mais irritados com essa presença militar estrangeira. Eles estão convencidos de que os soldados enviados por Paris poderão facilitar o trabalho das forças governamentais. Em Yamoussoukro, capital administrativa da Costa do Marfim, os mercenários de várias nacionalidades, com uniforme cáqui, passeiam pelos bares dos principais hotéis da cidade, onde contam as aventuras do dia. Pilotos de pequenos aviões e helicópteros e os soldados com revólver na cintura, metralhadoras colocadas sobre as mesas, relatam suas proezas. Uns revelam como puderam aterrissar seus helicópteros em zona inimiga com pane de combustível, e não sabem mesmo como escaparam com vida. Muitos são veteranos de outros conflitos africanos e alguns trabalharam com o mais famoso de todos os mercenários, Bob Denard, envolvido em golpes em vários países, até mesmo no arquipélago dos Comores. "Eles prometeram maravilhas ao presidente Gbagbo, mas o tempo está passando e até agora não mostraram nada", afirma um dos assessores do presidente da Costa do Marfim, responsável pelo recrutamento desses homens na França, na África do Sul e na Ucrânia. Recentemente, eles foram vítimas ingênuas de uma emboscada armada pelos rebeldes. Quanto às forças governamentais, ao contrário do que ocorre com outros países, os soldados da Costa do Marfim não têm muita experiência, pois esse país não tem um passado de guerras e rebeliões. Recentemente, eles não resistiram a uma ofensiva rebelde, retirando-se e deixando na linha de frente os mercenários sul-africanos. Os mercenários contratados mais recentemente são pilotos da Bielo-Rússia, o que deixou os demais mercenários muito irritados, pois eles não falam uma palavra de inglês ou francês, dificultando a comunicação, impossibilitando a coordenação de ações em terra e ar. Um mercenário, seja piloto ou combatente, ganha em média ? 8 mil por mês, menos do que um piloto de linha regular na Europa, mas arrisca sua vida diariamente. Nas ofensivas contra os rebeldes, os danos colaterais têm sido importantes e a população civil tem pago um preço elevado, mas isso fica por conta da tentativa de salvar o mandato do presidente e a própria democracia. A Costa do Marfim sempre foi um bom exemplo africano, mas aos poucos está se transformando numa Libéria ou Serra Leoa, onde os confrontos freqüentes e sangrentos destruíram a infra-estrutura. O governo da França, país que fornece uma grande parte dos mercenários na África, pensa em aprovar uma lei proibindo a atuação desses combatentes profissionais, mas enquanto isso não acontece a Costa do Marfim está mergulhando numa guerra civil que poderá destruir o país.

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