Mercosul apóia Argentina, diz embaixador

Os presidentes dos países do Mercosul apóiam o presidente argentino, Eduardo Duhalde, e torcem pela volta da estabilidade no país. Essa é, na avaliação do embaixador do Brasil na Argentina, José Botafogo Gonçalves, a principal mensagem da reunião que ocorre hoje na residência oficial de Olivos, da qual participam os presidentes dos quatro sócios do Mercosul (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai), mais Chile e Bolívia."A visita ajudará a transmitir para a comunidade internacional que o Mercosul apóia esse governo", comentou o embaixador. Na sua avaliação, embora o momento mais agudo da crise já tenha passado, o país ainda enfrenta uma conjunção de crises financeira, política, econômica e institucional. "Se a Argentina precisa desse apoio, é porque enfrenta problemas", admitiu. O temor já expressado por autoridades do governo brasileiro é que, levada ao limite, a crise poderia trazer conseqüências para toda a região.Segundo Botafogo, os países do Mercosul querem que Duhalde permaneça no cargo porque "não há alternativa melhor do que essa." Os chamados "panelaços" ou "argentinaços" vêm ocorrendo nas 24 horas do dia já se tornaram rotina na paisagem portenha. Não são poucos os que pregam a derrubada de Duhalde. Mas na avaliação de Botafogo o presidente argentino conseguiu, bem ou mal, reunir uma maioria que lhe dá apoio no Congresso, e é de interesse dos países do Mercosul que esse embrião de estabilidade política seja preservado. Por isso, o embaixador acredita que a antecipação das eleições, marcadas para 2003, "não ajudaria em nada, só atrapalharia", pois abririam espaço para a politização de questões técnicas que precisam ser resolvidas de imediato, como a saída do "corralito", a retenção dos saldos bancários dos argentinos.O fim do "corralito" é a questão que tem monopolizado as atenções das autoridades econômicas da Argentina, segundo informou Botafogo Gonçalves. Outras questões que estão em negociação do Brasil, como a revisão do acordo automotivo e a ampliação do Convênio de Crédito Recíproco (CCR), ainda não receberam a devida atenção dos argentinos, por absoluta falta de tempo.O Brasil quer uma revisão do regime automotivo cujo objetivo final é a liberalização total do comércio de veículos entre os dois países. Os argentinos, porém, não têm nenhuma proposta a respeito. Em princípio, isso seria bom para ambos os lados, pois representaria um mercado mais amplo para as montadoras brasileiras e maior possibilidade de exportação também por parte dos argentinos. Mas sua implementação não é tão simples, pois a indústria argentina é menos competitiva nesse setor.Na agenda dos argentinos, as preocupações são outras. Quando esteve no Brasil, semana passada, o ministro da Produção, José Ignacio de Mendiguren, disse que o governo de seu país está preocupado com o desabastecimento e a inflação e admitiu que as tarifas de importação de alguns produtos poderiam ser reduzidas para enfrentar esses problemas. Segundo Botafogo, existe um mecanismo no Mercosul que permite tal medida, reduzindo a tarifa de importação para produtos que não puderem ser encontrados dentro do bloco. Essa regra foi criada por pressão do Brasil, em 1996.Se o encontro de hoje resultar numa agenda para tratar desse e de outros assuntos econômicos e políticos do relacionamento Brasil-Argentina, já será um grande avanço, acredita o embaixador. As conversas ocorreram na noite de ontem. O presidente Fernando Henrique Cardoso e o ministro das Relações Exteriores, Celso Lafer, ficaram hospedados na residência de Olivos. Estava programado um tête-a-tête dos dois presidentes, seguido de um jantar do qual participariam também Lafer e o chanceler argentino, Carlos Ruckauf.Já os assuntos relacionados a Mercosul serão discutidos na manhã de hoje, também em Olivos. Também nesse caso, um cronograma para avançar nas questões pendentes do Mercosul deverá ser o resultado mais palpável. A simples retomada do diálogo e a reconstrução dos canais de negociação são vistos como os objetivos mais importantes do momento. A última vez que os presidentes se reuniram foi em dezembro passado, em Montevidéu, no Uruguai. Nessa ocasião, nada foi decidido porque o então presidente argentino Fernando de La Rúa foi deposto em meio ao encontro. Em dezembro, a presidência pró-tempore do Mercosul foi transmitida do Uruguai para a Argentina, mas passar o bastão foi uma tarefa mais difícil do que o presidente uruguaio, Jorge Battle, poderia imaginar. Ele precisou vir a Buenos Aires duas vezes, entregar o cargo a dois presidentes diferentes: Rodríguez Saá e o próprio Duhalde.

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