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Mercosul convoca reunião de emergência para discutir punição à Venezuela

Chanceleres de Brasil, Uruguai, Argentina e Paraguai se reunirão dia 11 em Montevidéu a pedido do governo paraguaio

Rodrigo Cavalheiro, CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES

05 Julho 2016 | 18h00

Chanceleres de Brasil, Uruguai, Argentina e Paraguai se reunirão dia 11 em Montevidéu a pedido de Assunção, que deseja suspender Caracas do bloco por violação de direitos humanos ou pelo menos vetar a passagem da presidência semestral à Venezuela. Por ordem alfabética, caberia ao país governado por Nicolás Maduro receber o comando do Uruguai, que assumiu em dezembro e insiste em fazer o transpasso apesar da crise econômica e institucional no país caribenho. 

"A situação da Venezuela a cada dia se complica mais e necessitamos que à frente do Mercosul esteja um país com tranquilidade interna, paz, para que possa levar adiante os desafios que temos no próximo semestre", disse o chanceler uruguaio Eladio Loizaga na manhã desta terça-feira, 5, ao sair de uma reunião com o presidente Horacio Cartes em Assunção. Em discurso no Congresso na sexta-feira, Cartes denunciou "violações de direitos humanos sofridas pelo povo da Venezuela" e disse que como membro do Mercosul não poderia se omitir. 

As palavras de Cartes, acima do tom dos demais membros do bloco, decorrem de uma disputa interna no bloco agravada a partir do dia 27. O chanceler uruguaio Rodolfo Nin Novoa, com apoio da argentina Susana Malcorra, anunciou então que a Venezuela assumiria o comando do bloco. Negociações como a do tratado de livre comércio com a União Europeia continuariam com Montevidéu. A diplomacia paraguaia considerou-se excluída da decisão e argumentou que a brasileira também não havia sido consultada. Nesta terça-feira, o chanceler José Serra (PSDB-SP) voou para Montevidéu, onde falou com o presidente Tabaré Vázquez sobre o assunto.

O Uruguai não recuou diante da reclamação paraguaia. Na segunda-feira, 5, Nin Novoa reforçou à Rádio Oriental que legalmente é preciso passar à Venezuela a presidência. Desta vez, isso seria feito sem a tradicional cúpula de chefes de Estado em razão da crise política no país caribenho e no Brasil. Ele acrescentou que não há ruptura democrática na Venezuela e provocou o chanceler paraguaio, ao afirmar que se o Parlamento venezuelano for fechado passará a concordar com ele. "Há uma democracia autoritária na Venezuela, mas o jurídico está acima do político", justificou o chanceler uruguaio.

A crise no Mercosul marca o afastamento dos aliados mais próximos dentro do bloco até o início do ano, Paraguai e Argentina. Em visita a Buenos Aires em fevereiro, Loizaga demonstrava afinidade plena com Malcorra, na fase em que o presidente argentino, Mauricio Macri, defendia uma punição para Caracas enquanto presos políticos não fossem soltos. 

A diplomacia argentina moderou recentemente seu discurso, o que provocou críticas da oposição venezuelana. O presidente do Parlamento da Venezuela, Henry Ramos Allup, chamou o argentino de hipócrita e outros antichavistas insinuaram que a mudança convinha à candidatura de Malcorra à secretaria-geral da ONU. Se em fóruns internacionais a Argentina já não defende uma punição a Caracas, em entrevistas Macri segue falando grosso. Ao jornal conservador espanhol ABC, disse que Maduro "levou fome e abandono à população venezuelana. Por isso eles precisam de um referendo, precisam de eleições o mais rápido possível". 

Em Bruxelas nesta segunda-feira, Macri complicou ainda mais o cenário dentro do bloco, ao afirmar em uma entrevista coletiva que seu país assumiria a chefia do Mercosul no lugar da Venezuela. "Nós vamos presidir nos próximos meses o Mercosul", disse. Segundo o jornal La Nación, Malcorra repreendeu em seguida o presidente por revelar uma alternativa não cogitada em público até o momento, enquanto Macri ria com companheiros da delegação por ter falado demais.

Na chancelaria uruguaia, a autopromoção argentina caiu mal. "Não podemos saltar a Venezuela. O mando só poderia passar para a Argentina em caso de suspensão de Caracas, não há essa possibilidade. Macri acha que dirigir a Argentina é dirigir o Boca Juniors", disse irritado ao Estado um integrante da diplomacia uruguaia ligado a Novoa, que garantiu que seu país não recuará. "A passagem do comando pode ocorrer sem holofotes, é o que determina a lei", completou.

O Paraguai é o único país apoiou explicitamente o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), Luis Almagro, no processo de aplicação da Carta Democrática da organização à Venezuela, um instrumento jurídico com o qual procura aumentar a pressão internacional sobre o governo de Nicolás Maduro. Analistas argentinos consideram a tentativa de suspender Caracas uma forma de responder ao tratamento dado a Assunção em 2012, quando o país foi punido após o impeachment relâmpago de Fernando Lugo.

 

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