Mercosul será prioridade, diz Kirchner

Um país sem sobressaltos, com um Estado ativo, com uma recuperação econômica gradual mas "sem milagres". Este foi o recado dado pelo novo presidente argentino, Néstor Kirchner, durante seu discurso de posse. Kirchner - que recebeu hoje o cargo das mãos de seu antecessor e "padrinho" político, Eduardo Duhalde - destacou que o Mercosul será a prioridade nas relações internacionais da Argentina e que pretende combater as pressões dos mercados e dos poderosos grupos econômicos. A palavra que mais utilizou, e que tudo indica será o hit parade de sua administração foi "el cambio" (a mudança)."Sou um homem de convicções, e não vou deixá-las na porta da Casa Rosada", exclamou, no meio de intensos aplausos de centenas de pessoas no plenário da Câmara de Deputados, onde recebeu a faixa e o bastão presidencial. Kirchner recordou que pertence à uma geração que foi "dizimada" pela última Ditadura Militar (1976-83)."Desejo um país normal" e "Quero um país mais sério" foram as frases que encabeçaram o começo e o fim de seu discurso. Em uma referência implícita ao governo neo-liberal do ex-presidente Carlos Menem (1989-99), disse que os argentinos deixaram claro nas eleições que não pretendiam "voltar ao passado", alertando porém que "ninguém deve pensar que as coisas vão mudar de um dia para o outro".O presidente disse que seu estilo de governo será a de avançar de forma cuidadosa e progressiva: "não se tratam de fazer obras faraônicas". Além disso, destacou que quer a construção de um "capitalismo nacional". Nas galerias da Câmara, os simpatizantes do novo presidente gritavam: "Olé, olé, Lupo, Lupo..." (Lupo é um dos apelidos familiares de Kirchner).Para possibilitar essa recuperação econômica, Kirchner disse que o Estado argentino terá um papel fundamental na geração de novos postos de trabalho. Segundo ele, o Estado "tem que colocar igualdade onde o mercado abandonou e excluiu". Ainda em relação aos mercados, disparou contra os "fundos abutres": "os fundos de investimentos estrangeiros precisam ser diretos e produtivos". Kirchner disse que é preciso voltar a planejar obras públicas, e citou como exemplo o New Deal, do presidente americano Franklin D. Roosevelt (1932-45).O novo presidente referiu-se com rigor aos grandes grupos empresariais, afirmando que não aceitará "pressões" e que os grandes sonegadores vão ter que colocar "um terno de listas", em referência à roupa de presidários.Kirchner afirmou que o Mercosul e a integração latino-americana deve ser parte de um verdadeiro projeto polítco nacional, que terá que "ampliar-se abarcando novos membros latino-americanos". Segundo Kirchner, o Mercosul é a prioridade internacional da Argentina. Com os Estados Unidos, foi mais sucinto, afirmando apenas que pretende ter uma relação "séria e madura" e que "acabaram os alinhamentos automáticos".Protocolo - Nem para a posse presidencial Kirchner deixou de lado o desleixado costume de deixar o jaquetão desabotoado. Sua esposa, a independente Cristina Fernández de Kirchner, não quis o papel de "primeira-dama" e sentou-se no plenário como uma mera senadora. Duhalde, chamado por seus assessores de "Tachuela" (Tachinha, por sua baixa estatura) 20 centímetros mais baixo do que Kirchner, teve que se esticar para colocar a faixa em Kirchner, de 1,88, que teve que se inclinar para facilitar a tarefa de seu antecessor e "padrinho" político. Dias atrás, a faixa teve que ser aumentada, já que o tórax do novo presidente era maior que o do miúdo Duhalde. Depois da faixa, Kirchner recebeu o bastão presidencial, com o qual brincou com irreverência.Na saída do Congresso Nacional, Kirchner quebrou o protocolo várias vezes, para abraçar pessoas do povo. Logo depois, o presidente entrou no carro presidencial, e, acompanhado pelo corpo de Granaderos a cavalo, foi pela histórica Avenida de Mayo até a Casa Rosada, a sede de governo. Ao longo do trajeto, uma multidão inesperada acotevelava-se nos 20 quarteirões que separam o Parlamento do palácio presidencial. Em diversos pontos, ondulavam bandeiras do Brasil e da Venezuela. Ao chegar na Casa Rosada, mais uma vez Kirchner rompeu o protoloco para saudar as pessoas. No meio dos abraços, levou uma pancada na testa de uma câmara fotográfica e começou a sangrar abundantemente.Otimismo - Uma pesquisa da consultoria OPSM indica que depois de quase dois anos de trubulências sociais, econômicas e políticas, nas quais o pessimismo predominou, os argentinos estão com esperanças de mudanças positivas com o início do governo Kirchner.Segundo a pesquisa, para 70,8% dos argentinos, a posse de Kirchner gera "otimismo". Apenas para 13,9% a posse gera "pessimismo". Além disso, a pesquisa indicou que para 68,2%, o desemprego deve ser o principal frente de combate do novo governo. Longe, em segundo lugar, com 11%, está a segurança pública.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.