Ariana Cubillos/AP
Ariana Cubillos/AP

Mercosul vira quinteto com entrada da Venezuela

Adesão do país caribenho levou oito anos para acontecer

Ariel Palacios, correspondente em Buenos Aires,

30 de julho de 2012 | 11h30

BUENOS AIRES - Das cálidas águas do Caribe às gélidas ondas do Canal de Beagle. Estas serão as novas fronteiras setentrionais e meridionais do Mercosul, que será ampliado nesta terça-feira, 31, com a incorporação oficial da República Bolivariana da Venezuela em uma cerimônia com toda pompa em Brasília. O encontro, que transformará o país caribenho no quinto sócio pleno do Mercosul, contará com a presença - além da própria anfitriã, a presidente Dilma Rousseff - da presidente Cristina Kirchner (a principal defensora da ideia do ingresso da Venezuela) e o uruguaio José Mujica.

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O convidado especial é o presidente venezuelano Hugo Chávez, que promete ser a estrela deste convescote presidencial no planalto central. O ausente será o presidente do Paraguai, um dos quatro países-fundadores do Mercosul, Federico Franco, já que seu país foi suspenso de forma temporária recentemente pelos três sócios restantes do bloco.

O Paraguai foi suspenso desta organização regional em junho sob a acusação de ter "interrompido a ordem democrática" interna ao destituir em um processo de impeachmente o então presidente Fernando Armindo Lugo. Esta suspensão foi imposta até abril do ano que vem, quando o Paraguai terá eleições presidenciais.

Coincidentemente, o Paraguai era o último obstáculo para a entrada da Venezuela no Mercosul, já que o Senado em Assunção rejeitava a ideia do ingresso bolivariano no bloco. Na contra-mão, os parlamentos do Brasil, Argentina e Uruguai já haviam aprovado a entrada da Venezuela nos últimos anos.

Depois de um acelerado trâmite de suspensão do Paraguai do Mercosul, ficou livre o caminho para o ingresso venezuelano. O presidente Hugo Chávez insistia na entrada plena da Venezuela no bloco do cone sul desde 2004. "O Mercosul precisa estender-se do canal de Beagle até o (rio) Orinoco", repetiu em diversas ocasiões ao longo dos últimos oito anos.

Quando os três sócios do quarteto original do Mercosul, reunidos na cúpula de presidentes do bloco realizada no fim de junho na cidade argentina de Mendoza, aprovaram a entrada da Venezuela, Chávez, que estava em Caracas, celebrou: "esta é uma derrota do imperialismo e para as burguesias lacaias". Segundo Chávez, a "burguesia venezuelana" e a "burguesia paraguaia" haviam "conspirado" de forma coordenada para impedir o ingresso do país caribenho.

 

Os analistas afirmam que a entrada da Venezuela no Mercosul tem seus prós e seus contras. Por um lado, indicam, o mercado venezuelano fica aberto para os produtos industrializados da Argentina e Brasil, além dos produtos alimentícios do Uruguai e Paraguai. Mas, por outro lado, o Mercosul passa a contar dentro de sua organização com um país governador por um presidente turbulento, que constantemente entra em confronto com países europeus e EUA. Além disso, existem suspicácias sobre os vínculos intensos que a Venezuela forjou nos últimos anos com o Irã e a Síria.

Oito anos de espera

Os presidentes dos países fundadores do Mercosul aceitaram o pedido de entrada da Venezuela em 2006. Nos meses seguintes o pedido foi tramitado nos parlamentos dos países fundadores do Mercosul. Depois de ter sido aprovado pelos congressos nacionais do Uruguai, Argentina e Brasil, o ingresso venezuelano ficou bloqueado no Senado paraguaio, onde a oposição - que tinha a maioria - rejeitava a entrada venezuelana.

O então presidente Fernando Lugo, amigo de Chávez, fracassou em diversas tentativas para tentar seduzir os senadores paraguaios. Nos últimos anos, em Assunção, surgiram diversas denúncias de tentativas de subornos a senadores paraguaios por parte de Caracas. No entanto, nunca foram confirmadas.

Para satisfazer Chávez, os países do Mercosul decidiram em uma reunião em Montevidéu promover a Venezuela ao posto de "sócio pleno em estado de adesão", um eufemismo para indicar que o país ainda não era um integrante 100% do Mercosul.

No entanto, Chávez continuou insistindo na entrada da Venezuela. Em dezembro passado, durante a cúpula do Mercosul no Uruguai, o presidente uruguaio José Mujica propôs um "drible jurídico" - chamado ironicamente de "a manobra Mujica" - para que a entrada da Venezuela fosse aprovada diretamente por Lugo, prescindindo do Senado paraguaio.

A proposta causou polêmica em Assunção, onde parlamentares da oposição ameaçaram abrir um processo de impeachment caso Lugo decretasse a entrada da Venezuela, passando por cima do Senado.

Em dezembro, na cúpula do Mercosul em Montevidéu, Chávez demonstrou irritação com a demora do ingresso de seu país. Na ocasião, esbravejou: "a entrada da Venezuela no bloco não foi possível nestes anos por causa de 'mãos peludas' da extrema direita!"

A entrada venezuelana no bloco tornou-se finalmente possível graças à primeira oportunidade que surgiu: a suspensão temporária do Paraguai do bloco.

 

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