Merkel adota tom conciliador com socialista francês

Governo da chanceler alemã, que apoiou Sarkozy na eleição, saúda vitória de Hollande e ressalta 'responsabilidades com a Europa'

ANDREI NETTO, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

07 Maio 2012 | 03h01

Eleito com o objetivo de "reorientar a Europa para o caminho do crescimento", o novo presidente da França, François Hollande, inicia hoje a montagem de seu governo. Seu primeiro grande desafio, porém, é outro: encontrar um ponto de acordo com a Alemanha, seu maior parceiro na União Europeia.

A expectativa entre eleitores - e investidores - é que o presidente francês e a chanceler alemã, Angela Merkel, cheguem a um consenso em sua maior divergência - a austeridade.

Ao longo de sua campanha, Hollande vinha defendendo a "seriedade fiscal", mas combatia o que chamou de "austeridade eterna". Segundo ele, a União Europeia entrou em uma espiral recessiva ao adotar o amplo corte de gastos públicos na ânsia de reduzir os déficits e dívidas públicas, a causa da crise atual. Ao exagerar na tesoura, teria comprometido o crescimento e, com isso, prejudicado os prognósticos de ampliação do Produto Interno Bruto (PIB).

Ontem, em seu primeiro discurso, ainda em Tulle, o presidente eleito mandou um recado aos parceiros europeus. "Hoje mesmo, já responsável pelo futuro do nosso país, vejo que a Europa nos observa. No momento no qual o resultado foi proclamado, tenho certeza que em vários países europeus isso foi um alívio, uma esperança, a convicção de que, enfim, a austeridade não seria mais uma fatalidade", disse ele. "Essa é daqui para frente a minha missão: dar à construção europeia uma dimensão de crescimento, de emprego e de prosperidade."

Hollande, que enquanto candidato vinha lendo livros sobre o New Deal, a política de relançamento econômico dos EUA entre 1933 e 1938, durante a Grande Depressão, afirmou ainda que pretende se encontrar em breve com outros líderes do bloco para reorientar os rumos econômicos da Europa. "Eu levarei (minhas propostas) o mais cedo possível a nossos parceiros europeus e, em particular, à Alemanha, em razão dos laços de amizade que nos unem."

Em Berlim, o movimento de aproximação também já começou. Desde que a chanceler Angela Merkel anunciou o apoio a Nicolas Sarkozy - ambos eram do mesmo partido europeu -, a pressão pelo entendimento só tem aumentado. Ontem, o ministro das Relações Exteriores, Guido Westerwelle, fez questão de dizer que a Alemanha está aberta a voltar suas forças para políticas de estímulo, mas também sinalizou que espera concessões de Hollande. "Uma vez que o tempo das decisões chega, tomamos consciência de nossas responsabilidades, não só para nosso próprio país, mas para a Europa."

Pragmatismo. Analistas ouvidos pelo Estado afirmam que o entendimento entre as potências virá cedo ou tarde, assim como aconteceu com o socialista francês François Mitterrand e com o conservador alemão Helmut Kohl nos anos 1980. "O apoio de Merkel a Sarkozy não terá importância nas relações entre os países. Hollande, como presidente, terá de falar com ela de qualquer forma. A relação entre Alemanha e França é tão estreita que é preciso trabalhar junto", diz Philippe Moreau Defarges, do Instituto Francês de Relações Internacionais (IRIS).

Para Desfarges, Merkel vai questionar Hollande sobre as reformas, sobre a redução da dívida e sobre o retorno de crescimento. "Não haverá um retorno do crescimento pela política keynesiana, pelos investimentos públicos, porque isso a Alemanha não aceita. A outra via é a da reforma econômica. A Alemanha quer ortodoxia, sem se perguntar se vai matar a Europa", estima. "Será preciso buscar um ponto de acordo. Há uma relação de forças e, nesse momento, ela é favorável à Alemanha, que segue crescendo. Logo será necessário convencer Merkel. Ela sabe que não poderá se isolar."

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