MON/Handout via REUTERS
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Imigração na fronteira entre Polônia e Belarus abre nova crise entre Putin e Ocidente

A chanceler alemã ligou para o presidente russo após o primeiro-ministro polonês dizer que a Rússia estava por trás do fluxo de pessoas do Oriente Médio para as fronteiras da UE

Redação, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2021 | 14h59
Atualizado 11 de novembro de 2021 | 15h43

A chanceler alemã, Angela Merkel, pediu nesta quarta-feira, 10, ao presidente russo, Vladimir Putin, que intervenha na crise na fronteira entre Belarus e Polônia, em um apelo ao principal patrocinador estrangeiro de Minsk. A crise na fronteira levuo a um novo embate entre o Ocidente e o líder russo.

A União Europeia (UE) também pediu a Putin que interviesse na crise. O regime de Alexander Lukashenko, enfraquecido por sanções, depende fortemente do apoio financeiro, político e militar da Rússia. Mas Putin, que luta há meses para fazer com que a Alemanha inicie um novo gasoduto, se limitou a pedir um diálogo e enviou dois bombardeiros para patrulhar o espaço aéreo de Belarus, em um raro movimento que mostra seu apoio ao regime de Lukashenko.

Durante o telefonema desta quarta, Merkel disse a Putin que “o uso de migrantes pelo regime belarusso era desumano e inaceitável e pediu a Putin para influenciar o regime de Minsk”, disse o porta-voz da chanceler, Steffen Seibert. A conversa aconteceu horas depois que o primeiro-ministro da Polônia acusou Putin de “planejar a crise na fronteira de Belarus” com a UE.

A retórica crescente, incluindo alegações do líder belarusso, Lukashenko, de que a Rússia poderia ingressar em um conflito potencial na fronteira, deixou claro o papel que as alianças regionais estão desempenhando no impasse e na crise humanitária que se seguiu.

A Rússia negou qualquer envolvimento e culpou a Europa. Em nota oficial, o Kremlin afirmou que Putin “propôs estabelecer uma discussão sobre os atuais problemas nos contatos diretos entre representantes dos Estados membros da UE com Minsk”.

O governo russo não mencionou o pedido de Merkel para que Putin interviesse, nem prometeu qualquer ação da Rússia para acabar com a crise.

Polônia e Lituânia declararam estado de emergência em suas fronteiras com Belarus, onde Lukashenko foi acusado de transportar requerentes de asilo do Oriente Médio para as fronteiras da UE como vingança pelas críticas do bloco sobre sua repressão à oposição.

A chegada de mais de 1.000 pessoas por dia, muitas delas vindas do Curdistão iraquiano, à fronteira com a Polônia desde segunda-feira levou a crise ao auge. Guardas de fronteira poloneses disseram na quarta-feira que dois grupos de várias dezenas de pessoas cruzaram ilegalmente as fronteiras durante a noite. Eles foram presos e expulsos, disseram. Os guardas de fronteira da Lituânia disseram que impediram 281 tentativas de cruzar a fronteira ilegalmente na terça-feira.

Numa sessão extraordinária do parlamento na noite de terça-feira, o primeiro-ministro polonês, Mateusz Morawiecki, culpou Moscou e Putin pela crise, chamando o líder russo de um “facilitador” das manobras de Lukashenko.

“Este ataque que Lukashenko está conduzindo tem seu cérebro em Moscou. O cérebro é o presidente Putin ”, disse Morawiecki na câmara baixa do parlamento da Polônia, que é dominada pelo partido de direita Lei e Justiça.

Morawiecki disse que Putin está determinado a “reconstruir o império russo” e chamou a crise na fronteira de “um novo tipo de guerra, na qual as pessoas são usadas como escudos vivos”.

Os comentários são as acusações mais diretas contra a Rússia em uma crise em que o Kremlin não desempenhou um papel aberto. 

As agências de viagens de Belarus emitiram vistos e trouxeram centenas de pessoas do Iraque, Síria e outros países para Minsk, de onde viajam para o oeste para tentar cruzar a fronteira e, em seguida, ir da Polônia para a Alemanha. Muitas das companhias aéreas que os transportam são belarussas ou estão localizadas no Oriente Médio.

Moscou tem sido um aliado cada vez mais importante para Belarus, apoiando Lukashenko depois de sua repressão brutal aos protestos e aos opositores do país, em meio a sanções da Europa e dos EUA que deixaram Minsk isolada.

Os países da União Europeia (UE) ameaçaram novas sanções e acusaram Lukashenko de usar “táticas de gangster” e de “tráfico de pessoas”.

Na terça-feira, o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, disse que os países ocidentais, incluindo os países membros da UE e a Otan, eram a "raiz" da crise.

“UE e Otan estavam pressionando por uma vida melhor e por uma democracia no estilo ocidental, da forma como é interpretada pelo Ocidente”, disse ele, referindo-se às intervenções lideradas pelos EUA e ao suposto apoio ocidental à primavera árabe. “Este é o resultado”. 

Lukashenko e Putin se falaram ao telefone para discutir a crise na fronteira. Na quarta-feira, a Organização do Tratado de Segurança Coletiva (CSTO), uma aliança militar de ex-estados soviéticos, disse que estava acompanhando a crise “de perto e com preocupação”.

“A crise dos migrantes pode evoluir para um grande desastre para milhares de civis, incluindo várias mulheres e crianças”, disse a secretaria do CSTO em um comunicado. Dominado por Moscou, o grupo é visto como a resposta do Kremlin à Otan.

Um porta-voz da Otan disse na terça que a aliança militar "está pronta" para fornecer ajuda para acabar com a crise.

A Polônia enviou cerca de 11.000 soldados para a área de fronteira, criou uma zona militarizada com três quilômetros de extensão, construiu uma cerca de arame farpado e aprovou a construção de um muro de fronteira. Também está impondo um estado de emergência na região, bloqueando acesso da mídia.

Lukashenko ameaçou o Ocidente após a conversa com Putin. “Para conduzir uma guerra com essas pessoas infelizes na fronteira da Polônia com Belarus e avançar colunas de tanques - está claro que isso é um treinamento militar ou é uma chantagem”, disse Lukashenko. “Vamos enfrentar isso com calma.”

Em uma ameaça velada, ele acrescentou que a Rússia poderia ser forçada a intervir. “Não estamos intimidados. Porque sabemos que se, Deus nos livre, cometermos algum erro, se tropeçarmos, isso atrairá imediatamente a Rússia para este redemoinho, e ela é a maior potência nuclear”, disse ele.

A Reuters informou na quarta-feira que a UE estava perto de impor mais sanções à Belarus, visando 30 indivíduos e entidades, incluindo o ministro das Relações Exteriores e a companhia aérea belarussa Belavia, com aprovação provável já na próxima semana.

Um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores alemão disse que os ministros das Relações Exteriores da UE planejam ampliar as sanções em uma reunião na segunda-feira, inclusive contra países que ajudam a levar pessoas para Belarus. 

Questionado sobre se a Alemanha aceitaria migrantes unilateralmente, o porta-voz de Merkel disse que a questão era "irrelevante". Um porta-voz do Ministério do Interior alemão disse que se Belarus não fornecesse ajuda humanitária, a União Europeia precisaria fazê-lo, não apenas um Estado-membro. / AP, AFP e REUTERS

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