Kay Nietfeld/dpa via AP
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Merkel desiste de novo mandato na Alemanha e deixará poder em 2021

Após 13 anos à frente do país, chanceler alemã sai das urnas derrotada em eleição regional de Hesse, diz que não tentará reeleição como líder do seu partido, a União Democrata-Cristã, e deixará cargo depois das próximas eleições

Andrei Netto, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

29 de outubro de 2018 | 21h41

 A crise política que abala seu quarto governo obrigou a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, a anunciar o fim de sua carreira política nesta segunda-feira, 29. A data fixada, caso a líder democrata-cristã não venha a cair antes do posto que ocupa desde 2005, será o fim da atual legislatura, em 2021 – o limite para novas eleições parlamentares. 

A dama de ferro, que vem sofrendo revezes eleitorais em sequência, abandonará em dezembro o comando de seu partido, a União Democrata-Cristã (CDU), e com isso não poderá assumir a chefia de governo. 

A turbulência se agravou no domingo, quando sua legenda sofreu um novo revés eleitoral, dessa vez em Hesse, a região de Frankfurt. Na cidade, importante centro econômico e político, a CDU venceu a eleição para o parlamento regional com 27% dos votos, mas registrou um recuo de 11 pontos porcentuais em relação a 2013. Perda similar foi sofrida pelo Partido Social-Democrata (SPD), parceiro da CDU na coalizão nacional, que recebeu 19,8% dos votos, outro recorde negativo.

A situação reforçou os questionamentos nos dois partidos sobre a viabilidade política da aliança no longo prazo. Ambas as legendas, as mais tradicionais da Alemanha, vêm perdendo eleitorado para novas agremiações, como a Alternativa para Alemanha (AfD), de extrema direita, e os Verdes, ambientalistas de centro-esquerda.

Contribui ainda para a contestação crescente da liderança de Merkel a perda de popularidade que a chanceler enfrenta desde 2015, quando recebeu mais de um milhão de refugiados. Ainda que elogiada do ponto de vista humanitário, a atitude foi reprovada pela opinião pública e, desde então, a chanceler vem perdendo terreno. 

Novos líderes. Ao anunciar sua disposição de deixar o cargo de chefe do partido, Merkel tenta abrir caminho para que novas lideranças surjam na CDU, para garantir a hegemonia da legenda. No entanto, ao mesmo tempo, muda de ideia sobre a união indissociável entre a liderança partidária e a chefia de governo. “Estou convencida de que os dois postos são ligados. Mas não serei candidata à reeleição”, informou. “Por um período limitado, é possível separar as duas funções.”

Em um pronunciamento em que disse não ser mais possível fazer vista grossa à crise política, Merkel admitiu também os problemas em sua aliança. “A imagem apresentada pela coalizão é inaceitável. Eu me esforço para permitir que o governo faça, enfim, seu trabalho em boas condições”, reconheceu, referindo-se às críticas do SPD ao funcionamento do governo. 

Considerada líder forte da União Europeia até as eleições de setembro de 2017, Merkel ainda pode se tornar a chanceler mais longeva da história da Alemanha, se conseguir de fato se manter no cargo até 2021. 

Principal parceiro político da chanceler em Bruxelas, o presidente da França, Emmanuel Macron, elogiou a posição de Merkel. “É uma decisão extremamente respeitável e digna”, afirmou o francês, elogiando sua posição pró-Europa. “Ela jamais esqueceu quais são os valores da Europa, e com muita coragem dirige seu país.”

Histórico.

Abandonar o cargo de presidente do partido é uma grande concessão para Merkel, que por anos insistiu que a chanceler deveria ser a líder da sigla. Mas há precedentes para dividir os dois cargos.

O antecessor de Merkel, Gerhard Schroeder, saiu do cargo de líder do partido Social-democratas em 2004 quando seu governo enfrentou dificuldades, mas permaneceu como chanceler até que perdesse por pouco a eleição 18 meses depois. Helmut Schmidt, chanceler da Alemanha Ocidental de 1974 a 1982, nunca liderou o Social-democratas.

“A CDU encara um ponto decisivo”, disse o líder regional da Alemanha oriental Mike Mohring ao canal de televisão Welt. “Angela Merkel sabe o que é melhor fazer, e agora ela decidiu. E exige respeito.” Ele disse que é importante evitar “debates pessoais” e é importante restaurar a confiança das pessoas no CDU como um partido governante.

Merkel arrastou o CDU para o centro político em seus anos como líder, abandonando alistamento militar, introduzindo benefícios para encorajar pais a procurar seus filhos pequenos e abruptamente acelerando o fechamento de usinas nucleares alemãs depois do desastre de Fukushima em 2011, no Japão. A chanceler permitiu um grande número de refugiados na Alemanha em 2015, muitos fugindo da guerra na Síria, declarando “nós vamos conseguir” antes que gradualmente mudasse para uma estratégia mais restrita.

Essas decisões levaram a tensões no bloco conservador do CDU, principalmente com o partido-irmão na Bavária, o CSU, e ajudou o partido anti-imigração AfD ganhar suporte.

A líder do Social-democratas, Andrea Nahles, exigiu no domingo um “claro itinerário” para implementar projetos do governo antes que a coalizão federal enfrente acordo de mudanças no próximo ano. 

 

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