Merkel elege hoje líder da Comissão Europeia

Escolha do ex-premiê de Luxemburgo Jean-Claude Juncker será um trunfo da chanceler alemã, que fez intensa campanha por seu preferido

ANDREI NETTO, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

27 de junho de 2014 | 02h00

O ex-premiê de Luxemburgo Jean-Claude Juncker será eleito hoje, na Bélgica, o novo presidente da Comissão Europeia, o braço executivo do bloco de 28 países. A decisão será anunciada às margens da reunião de cúpula de chefes de Estado e de governo, e representa uma vitória política da chanceler alemã, Angela Merkel, e uma derrota estrondosa para o premiê britânico, David Cameron, que lutou contra a nomeação.

A reunião dos líderes europeus começou ontem, excepcionalmente em Ypres, cidade belga arrasada no maior front da 1.ª Guerra, que este ano completa 100 anos. Em seu primeiro dia, a cúpula foi marcada por homenagens aos mais de 500 mil soldados e civis mortos no conflito, mas nos bastidores as negociações diplomáticas em torno do comunicado final do evento não pararam.

O centro dos debates é a nomeação de Juncker para o cargo de "premiê europeu". Ex-coordenador do fórum de ministros de Finanças da zona do euro (Eurogrupo) durante o auge da crise econômica, em 2010 e 2011, o luxemburguês é visto pelos governos da Alemanha e da França como um executivo experiente, liberal moderado e federalista - ou seja, defensor de maior integração no interior da União Europeia. Foi essa última característica que levou Cameron a lançar uma campanha pública contra seu nome, pensando no crescente eleitorado eurocético britânico.

Em artigo publicado no dia 13 nos maiores jornais da Europa, Cameron chegou a afirmar que o luxemburguês não tem a legitimidade das urnas para ocupar o cargo. Cameron advertiu que "isso fragiliza, em lugar de reforçar, a legitimidade democrática europeia". Ele tentou obter apoio da Suécia, da Holanda e até da Alemanha contra a nomeação de Juncker e alertou que a escolha afastaria ainda mais a Grã-Bretanha da União Europeia, mas não funcionou.

O problema de Cameron foi o apoio aberto do Parlamento Europeu e de Merkel a Juncker, que lidera o Partido Popular Europeu (PPE, de centro-direita), majoritário do legislativo de Estrasburgo. Ao longo das semanas, líderes europeus foram convencidos a apoiá-lo. Ontem o presidente da França, François Hollande, chegou a abrir o voto em favor do luxemburguês. "Se houver um pedido de voto, eu apoio o pedido", disse, afirmando haver "amplo consenso" sobre o nome do ex-primeiro-ministro.

Poucos líderes divulgaram os votos ontem, mas não há dúvidas de que a maior restrição, à parte a de Cameron, caberá ao premiê da Hungria, o ultraconservador Viktor Orban, que denuncia a tomada de poder pelo Parlamento Europeu - que indicou Juncker. A maioria dos demais deve votar a favor.

A eleição de hoje encerra os quase dez anos de gestão do português José Manuel Durão Barroso, cuja administração foi alvo de duras críticas, resultando até mesmo na criação de outro cargo para contrabalançar seus poderes, o de presidente do Conselho Europeu, comandando por Herman van Rompuy, espécie de presidente da UE.

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