Janek Skarzynski/AFP
Janek Skarzynski/AFP

Merkel faz sua primeira visita a Auschwitz após 14 anos no poder

Visita coincide com a ascensão do antissemitismo e da extrema direita na Alemanha, assim como com o desaparecimento das últimas testemunhas dos horrores desse campo de extermínio

Redação, O Estado de S.Paulo

06 de dezembro de 2019 | 16h42

OSWIECIM, POLÔNIA - A lembrança dos crimes nazistas é “inseparável” da identidade alemã, declarou nesta sexta-feira, 6, a chanceler Angela Merkel em sua primeira visita ao campo de extermínio de Auschwitz. Na quinta-feira, Merkel anunciou a doação de ¤ 60 milhões à Fundação Auschwitz-Birkenau para a manutenção do local onde mais de 1,1 milhão de pessoas foram mortas entre 1940 e 1945. A maioria morreu pouco depois de chegar ao campo de concentração e extermínio nazista, localizado na Polônia.

A visita coincide com a ascensão do antissemitismo e da extrema direita na Alemanha, assim como com o desaparecimento das últimas testemunhas dos horrores de Auschwitz, o que dificulta a transmissão da memória.

“Recordar os crimes, nomear seus autores e prestar uma homenagem digna às vítimas é uma responsabilidade que nunca pode parar. Não é negociável. E é inseparável do nosso país. Ser consciente desta responsabilidade faz parte da nossa identidade nacional”, disse Merkel, a primeira chefe de governo alemão a visitar campo desde 1995.

Na Alemanha, a memória do Holocausto está no centro da reconstrução de sua identidade pós-guerra, mas as autoridades estão preocupadas com o aumento de atos antissemitas. Nesta sexta-feira, a chanceler reiterou que a “luta contra o antissemitismo e contra todas as formas de ódio” é uma das prioridades de seu governo. “É importante nomear claramente os criminosos. Nós, alemães, devemos isso às vítimas e a nós mesmos”, frisou a chanceler.

Em seu discurso, Merkel alertou contra “a ascensão do racismo e a disseminação do ódio”, além do antissemitismo que ameaça comunidades judaicas na Alemanha, na Europa e em todo mundo.

 Localizado na atual Polônia, o campo ficava em uma região anexada em outubro de 1939 pelo Reich e "administrada pelos alemães". "É importante nomear claramente os criminosos. Nós, alemães, devemos isso às vítimas e a nós mesmos", frisou Merkel.

Em seu discurso, Merkel alertou contra “a ascensão do racismo e a disseminação do ódio”, além do antissemitismo que ameaça comunidades judaicas na Alemanha, na Europa e em todo mundo.

Pela manhã, Merkel atravessou o portão do campo de concentração, onde ainda há o slogan nazista: “Arbeit macht frei” (O trabalho liberta). Falando antes de Merkel, Stanislaw Bartnikowski, um sobrevivente de Auschwitz, de 87 anos, deu um testemunho comovente. Deportado aos 12 anos com sua mãe, ele lembrou que perguntou aos prisioneiros quando seriam libertados. E recebeu a resposta dos prisioneiros promovidos a guardas auxiliares: “Há uma única saída para a liberdade, a que passa pelas chaminés dos crematórios.”

Aumento do racismo

Na quinta-feira, Merkel anunciou a concessão de € 60 milhões à Fundação Auschwitz-Birkenau para a manutenção do local onde mais de 1,1 milhão de pessoas foram mortas entre 1940 e 1945. A maioria morreu pouco depois de chegar ao campo de concentração e extermínio nazista, localizado na atual Polônia.

A visita da chanceler, nascida nove anos após a 2ª Guerra, ocorre pouco antes da comemoração do 75º aniversário da libertação de Auschwitz pelo Exército Vermelho russo, em 27 de janeiro de 1945.

Merkel observou um minuto de silêncio em frente ao Muro da Morte, onde dezenas de milhares de detidos foram fuzilados, e visitou Birkenau, a três quilômetros do campo principal.

Na Alemanha, a memória do Holocausto está no centro da reconstrução de sua identidade pós-guerra, mas as autoridades estão preocupadas com o aumento de atos antissemitas.

Ontem, a chanceler reiterou que a "luta contra o antissemitismo e contra todas as formas de ódio" é uma das prioridades de seu governo.

Em outubro, um ataque fracassado a uma sinagoga em Halle chocou o país. O autor, que matou duas pessoas aleatoriamente, é um jovem seguidor das teses negacionistas. O partido de extrema direita AfD, que entrou no Bundestag (Parlamento) há dois anos, defende o fim da cultura do arrependimento.

Últimas testemunhas 

O nome de Auschwitz se tornou um símbolo do mal absoluto. Judeus de toda Europa, da Hungria à Grécia, foram exterminados neste lugar.

Muitos detidos, incluindo crianças, foram submetidos a experiências hediondas pelo médico Josef Mengele, o "Anjo da Morte". Também neste campo, que continha três câmaras de gás e quatro crematórios, o gás Zyklon B foi usado pela primeira vez, em 1941.

Para o presidente do Conselho Judaico Central da Alemanha, Josef Schuster, "não há outro lugar de memória que mostre tão nitidamente o que aconteceu no Holocausto". "O assassinato industrial em massa continua a abalar os visitantes", disse Schuster à agência France-Presse.

Mas as últimas testemunhas dessa infâmia humana, conhecidas ou menos conhecidas, estão desaparecendo.  Leon Schwarzbaum, de 98 anos, e um dos últimos sobreviventes vivos, lembra as "chaminés que cuspiam fogo quando as pessoas eram queimadas e os gritos horríveis" das vítimas durante o extermínio dos ciganos em agosto de 1944.

Antes de Merkel, seus antecessores Helmut Schmidt, em 1977, e Helmut Kohl, em 1989 e 1995, visitaram Auschwitz.

Em 14 anos no poder, a chanceler visitou Ravensbrück, Dachau, Buchenwald e o Museu do Holocausto Yad Vashem em Jerusalém.

Em 2008, foi a primeira chefe do governo alemão a proferir um discurso na Knesset, o Parlamento de Israel. Na ocasião, lembrou a "vergonha" que mancha os alemães. Há 23 anos, o dia 27 de janeiro é a data de Recordação das Vítimas do Nazismo na Alemanha./ AFP 

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