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Merkel sob ameaça

A Alemanha, até agora aberta aos mais desafortunados, está se fechando como uma ostra

Gilles Lapouge, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2018 | 05h00

A chanceler Angela Merkel corre o risco de ser derrubada. Por quem? Por Horst Seehofer, que deu um ultimato de 15 dias. Se até lá ela não se submeter às exigências de Seehofer, seu governo acaba. Desafio sacrílego contra a irremovível Merkel. Especialmente se considerarmos que este inimigo mortífero faz parte de sua coalizão de governo. 

É verdade que Seehofer pertence à CSU, os democratas-cristãos da Baviera, que desde sempre estiveram muito à direita da CDU, o partido de Merkel. Assim, a primeira ameaça a Merkel vem de um aliado. Não é muito original: é uma figura comum nas guerras pelo poder: o líder é golpeado mais violentamente por seus aliados do que por seus adversários. “Que Deus me proteja dos meus amigos”, dizia Voltaire. “Dos inimigos, cuido eu.”

Certamente, a guerra lançada por Seehofer contra Merkel também tem outros motivos além da ambição. Estamos na presença de uma lacuna, um abismo que divide Alemanha, França, toda a Europa e, basicamente, a consciência humana: o que fazer com a onda de migrantes que se alastra para todas as direções, que não é detida por nada, nem arame farpado nem os guardas de fronteira.

Merkel, nesta tragédia, faz parte dos que concordam em ofender um pouco a prosperidade alemã e europeia, mas abrir suas portas para os miseráveis sem lugar. Um milhão de imigrantes entraram na Alemanha em 2015. Merkel jamais foi perdoada por tal generosidade. Mas, por que a ofensiva Seehofer neste momento? 

Primeiro porque Merkel, este silencioso felino, é um animal ferido pelos maus resultados das últimas eleições. Segundo, porque nos últimos meses, a Europa desliza em direção à intolerância. A opinião pública não suporta o peso dos sobreviventes do infortúnio e os movimentos políticos que pedem pela “tolerância zero” com os estrangeiros prosperam no continente. Não existe nenhum país europeu que não seja afetado. Os chamados “populistas” ou de “extrema direita” ou “defensores de suas identidades” levantam suas cabeças.

Não é de estranhar que a acusação contra Merkel, lançada por Seehofer, chegue poucos dias depois que o novo ministro do Interior da Itália tenha se recusado a abrir seus portos para vítimas de um naufrágio recolhidas por um navio humanitário. A Grã-Bretanha abandonou a UE em parte pela xenofobia. Itália, Áustria e países do Leste Europeu voltaram-se para a extrema direita em parte em razão dos imigrantes.

A Alemanha, até agora aberta aos mais desafortunados, está se fechando como uma ostra. A França, que prega a tolerância, é um dos países europeus mais severos em relação aos estrangeiros, especialmente quando estes vêm da África ou da Ásia. A única fraqueza da França: ela quer abrir as portas apenas se esses estrangeiros estiverem em perigo de morte em seu país. Haverá pouco mais que uma voz a defender o amor: o papa Francisco. 

Essas são as razões pelas quais o ataque a Merkel e sua eventual queda não são uma crise trivial de governo. São parte de uma das grandes batalhas espirituais de nosso tempo que estaremos presenciando nos próximos 15 dias, no ultimato dirigido à chanceler da Alemanha por seu ministro do Interior. 

E temos ainda Donald Trump, o presidente dos EUA, para colocar gasolina na fogueira. Ele gosta disso. Merkel, que ele despreza, a Europa, que ele busca demolir, agredindo-a há um ano, fazem parte de um caso ruim. Viva a América. Sozinha! / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO 

 

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