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Merkel, Trump e a Otan

A presença forte da Alemanha em assuntos mundiais incomoda parte do país

O Estado de S. Paulo

26 de novembro de 2016 | 07h51

No dia 20, a chanceler alemã, Angela Merkel, anunciou que se apresentará em setembro de 2017 para disputar seu quarto mandato à frente do país. Quatro dias depois, anunciou que a Alemanha destinará a partir de agora 2% do Produto Interno Bruto ao setor de Defesa. Isso significa que passará a dedicar duas vezes mais dinheiro às Bundeswehr – as Forças Armadas alemãs.

A notícia do aumento nos gastos da área é impactante. Até a decisão de Berlim, só duas nações europeias investiam tanto em suas Forças Armadas: o Reino Unido, que dedica 2,4% do PIB, e a França, com 1,8%. A resolução de Merkel desequilibra o quadro. A Alemanha se tornará a principal potência militar europeia. 

É uma extraordinária reviravolta na História. O país que produziu Hitler e os maiores carniceiros do século 20 vai se tornar a maior potência dessa Europa que o nazismo reduziu a cinzas há menos de um século.

Obviamente, ninguém imagina que Merkel vá calçar as botas de Frederico, o Grande, ou de Bismarck. Como, então, explicar essa brusca decisão da chanceler? A chave do enigma está no outro lado do Atlântico. O presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, entre suas muitas declarações intempestivas, atacou duramente a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), uma “organização obsoleta e dispendiosa”. 

A Otan, inútil ou ultrapassada? Não é isso que acham os alemães, nem Merkel. Ao contrário: para eles, a Otan é essencial a sua segurança. Foi isso que Angela Merkel quis lembrar a Donald Trump.

O verdadeiro alvo de Merkel é o isolacionismo que Trump, revivendo uma velha tentação americana, defendeu em sua campanha. Ao mesmo tempo, os acenos de Trump a Vladimir Putin incomodam a chanceler. Há pouco tempo ela disse que temia ataques cibernéticos russos durante a próxima campanha para as eleições legislativas alemãs. E não gostaria de que os americanos, a pretexto do isolacionismo, baixassem a guarda.

“Insisto”, afirmou Merkel quinta-feira, “na necessidade de defendermos nossos valores, não apenas com nossos meios, mas com os EUA e nossos aliados no mundo todo.”

Reação. Merkel não é de ficar se lamentando. Ela contra-ataca. Está “descontente” porque o futuro presidente dos Estados Unidos quer sair do acordo comercial transatlântico. Fustiga a Turquia pelas dezenas de milhares de prisões ordenadas pelo presidente Recep Erdogan. Investe contra a Rússia pelo apoio que o Kremlin, sob o comando de Vladimir Putin, tem dado ao governo de Bashar Assad na Síria.

Essa presença forte da Alemanha nos assuntos mundiais, associada à decisão de elevar as Forças Armadas alemãs ao primeiro escalão militar da Europa, aumentando o orçamento da Bundeswehr de ¤ 34 bilhões para ¤ 60 bilhões anuais, incomoda uma parte do país.

Jana Puglierin, do Instituto DGAP, resume: “A Alemanha não teve problemas em assumir a liderança econômica. Há anos também tem responsabilidades no campo diplomático. Mas, em razão de sua história (Hitler), ela continua pouco à vontade com a ideia de se firmar como potência militar. Com o Brexit (saída do Reino Unido da União Europeia) e a eleição de Donald Trump, o assunto volta à pauta. Desta vez, porém, o desafio é inédito, pois simultaneamente oscilam os pilares sobre os quais a Alemanha fundou sua política estrangeira e sua defesa: a União Europeia e a Otan”.

Sem dúvida, a chanceler Angela Merkel é cercada em seu país, de uma grande admiração. Menos, porém, que no exterior. Daí o comentário do jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung sobre a decisão da líder alemã de tentar se eleger para um quarto mandato: “Como poderá ela enfrentar a ascensão dos ‘populistas de direita’ se é incapaz de expulsar os imigrantes e acabar com a criminalidade?”

O Suddeutsche Zeitung a coloca em guarda: “Usar seu status de estadista de envergadura mundial será perigoso. Helmut Kohl, há não muito tempo, era o mais experimentado chefe de Estado da Europa. Mas precisou deixar o cargo porque os eleitores estavam mais interessados em emprego, educação, segurança interna e política social do que no processo de paz no Afeganistão e na Síria. Dizer aos eleitores ‘vocês me conhecem’ já não basta. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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