Leonardo Cabral/Estadão
Leonardo Cabral/Estadão

Mesmo após renúncia de Evo, fronteira entre Brasil e Bolívia continua fechada

Greve geral de manifestantes contrários ao ex-presidente é mantida pelo 20° dia consecutivo

Leonardo Cabral, especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2019 | 21h11

CORUMBÁ, MS - A linha internacional que divide as cidades de Corumbá, no Brasil, e Arroyo Concepción, Puerto Quijarro e Puerto Suárez, na Bolívia, permaneceu fechada nesta segunda-feira, 11, mesmo após a renúncia de Evo Morales ao cargo de presidente do país, no domingo.

A manifestação na região fronteiriça chega ao 20° dia, onde apenas pedestres cruzam entre os dois países. O bloqueio entre os dois lados é feito por montes de terra, entulhos, caminhões e até mesmo um guindaste que tem hasteada a bandeira boliviana.

A passagem é permitida apenas a pé ou em casos de emergência, como ambulâncias, já que muitos pacientes bolivianos são atendidos no pronto-socorro de Corumbá. O trânsito de comida e água também é permitido, para que não haja desabastecimento no país vizinho.

Os manifestantes alegam que aguardam determinação do Comitê Cívico de Santa Cruz de La Sierra para que a greve geral e o bloqueio sejam suspensos. 

De acordo com a presidente do Comitê Cívico Feminino de Puerto Quijarro, Rosário Hurtado de Gallardo, a greve prossegue sem previsão de reabertura da fronteira até que a renúncia oficial de Morales seja feita.

“Esperamos determinações dos Comitês Cívicos. Tudo segue como antes, mesmo com a renúncia de Evo Morales, que foi apenas de forma verbal e não tem como assegurar de forma oficial, pois não há um documento que comprove que ele deixou o cargo", disse. 

"Por esse motivo, a greve geral, bem como o bloqueio na fronteira, prossegue até que um presidente interino seja nomeado pela Assembleia Legislativa. Vamos esperar que se reúna o parlamento para que recebam a renúncia de forma oficial e, assim, um novo chefe de Estado seja nomeado, anunciando também as novas eleições”, explicou Rosário Hurtado.

Na tarde desta segunda, uma carta de renúncia redigida por Evo foi entregue ao Parlamento boliviano. Mais tarde, a segunda vice-presidente do Senado, Jeanine Añez, primeira na linha sucessória após as diversas renúncias no gabinete presidencial, Câmara e Senado, disse que novas eleições deverão ser convocadas em janeiro

Añez nasceu em Trinidad, Beni, em 13 de junho de 1967. Em 2010, foi eleita senadora da Bolívia pelo partido Plan Progreso. Na última eleição (2015), ela disputou pelo Democratas.

Bloqueios

Ao todo, existem sete pontos de bloqueios entre as cidades de Puerto Quijarro, na fronteira, até a cidade de Roboré. Todos estão registrados na estrada Bioceânica, via que liga Bolívia com Brasil.

Além disso, empresas de viagens que atuam nos terminais rodoviários de Puerto Quijarro e Puerto Suárez suspenderam a venda de passagens com destinos à Santa Cruz de La Sierra por causa dos bloqueios na rodovia.

Comércio afetado

Em Corumbá, o setor de comércio foi um dos mais atingidos devido à situação política vivenciada na fronteira, já que os bolivianos vinham sendo os principais compradores em diferentes segmentos, como nos setores de calçados, vestuário e até mesmo alimentício.

A Associação Comercial e Industrial de Corumbá (ACIC) estima que o comércio tenha deixado de faturar R$ 300 mil por dia, prejuízos que chegam a R$ 5 milhões para o setor em Corumbá.

Manifestações na Bolívia

As manifestações tiveram início ainda durante a apuração dos votos, após os bolivianos irem às urnas no dia 20 de outubro. Com a paralisação da contagem por quase 24 horas, retomada com um ganho de vantagem de Evo sob o segundo colocado, Carlos Mesa, o que o reelegeria ainda em primeiro turno, manifestantes começaram a ir às ruas com a acusação de fraude eleitoral, pedindo um segundo turno ou até mesmo novas eleições. 

As mobilizações ganharam cada vez mais apoio da população e de inúmeros setores da Bolívia, como do transporte pesado e até mesmo de grande parte da Polícia Nacional, que juntos exigiram a renúncia de Evo, declarado vencedor nas urnas. 

No entanto, depois de quase 20 dias de protestos, pressionado e praticamente isolado politicamente, Evo renunciou ao cargo de presidente após as Forças Armadas bolivianas também declararem apoio à população e pedirem para que ele deixasse o cargo. 

A notícia foi festejada pelos manifestantes. Na fronteira, uma carreata foi formada pelo grupo contrário ao ex-presidente, percorrendo as principais ruas das cidades de Puerto Quijarro e Puerto Suárez. 

Já os apoiadores do cocaleiro também se mobilizaram. Conflitos foram registrados em algumas cidades bolivianas.

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