'Mesmo barrada, oposição deve fazer seu papel no Irã'

Eleição desta semana dá chance para expor cisão interna entre iranianos, diz um dos mais conhecidos dissidentes do país persa

Entrevista com

ROBERTO SIMON, O Estado de S.Paulo

10 de junho de 2013 | 02h05

O jornalista iraniano Akbar Ganji, de 53 anos, já viu a república islâmica sob todos os ângulos. Ainda jovem, participou da revolta contra o regime do xá e foi soldado da Guarda Revolucionária na guerra Irã-Iraque. Nos anos 90, frustrou-se com a revolução e, um mês após o reformista Mohamad Khatami conquistar a presidência, fez um discurso sobre o "fascismo no Irã", que lhe rendeu 1 ano de prisão. Solto, publicou uma série de artigos sobre dissidentes mortos misteriosamente dentro e fora do Irã. Foi parar, então, na temida prisão de Evin, em 2000, de onde saiu apenas seis anos depois, em greve de fome.

Ganji diz recusar a "legitimidade" da república islâmica, mas defende que as eleições de sexta-feira são uma "oportunidade" à oposição, mesmo que seus líderes tenham sido banidos ou barrados da disputa. "É preciso usar esse momento para aprofundar a polarização entre ditadura e democracia no Irã", defende. A seguir, a conversa com o Estado.

Olhando para os protestos de 2009, na última eleição presidencial, qual foi a maior mudança na situação política do Irã?

O regime iraniano é um sistema de "neo-sultanismo", para usar a terminologia do sociólogo Max Weber, no qual a principal fonte de poder está no líder supremo. As políticas implementadas pelo presidente Mahmoud Ahmadinejad e pelo líder supremo, Ali Khamenei, desde 2009 tornaram a situação do Irã mais crítica. A república islâmica vive crises simultâneas: de legitimidade, poder, ideologia, economia e uma crise internacional. Há uma espécie de consenso entre as forças políticas iranianas de que esse rumo está errado, mas as críticas acabaram dirigidas a Ahmadinejad, e não ao líder supremo. Ao mesmo tempo que cresceu o descontentamento, a oposição não consegue sair às ruas.

Por quê?

Após a eleição de 2009 e a emergência do movimento verde, o regime brutalmente esmagou a oposição e criou um ambiente político fechado. Mas sempre que há uma brecha, opositores tentam aproveitá-la. Foi o caso do enterro em Isfahan (do aiatolá Jalaluddin Taheri, crítico de Khamenei), na terça-feira, quando dezenas de milhares começaram a gritar "Morte ao ditador!".

Alguns afirmam que essas eleições não são importantes, pois a oposição foi barrada e só "protegidos" de Khamenei entraram no páreo. O sr. concorda?

Essas eleições são importantes, pois abrem um grande espaço para que a oposição faça seu papel contra a ditadura, mesmo que Khamenei não tenha permitido nenhuma candidatura reformista. A principal divisão em nossa sociedade é entre aqueles que defendem a ditadura e os que lutam pela democracia. Sempre esperei - e espero desta vez - que a oposição use a oportunidade para aprofundar essa cisão, para polarizar o país entre seguidores e oponentes de Khamenei. As pessoas devem se mobilizar quando veem um candidato do líder supremo. Aliás, é por isso que, agora, Khamenei diz não ter nenhum candidato predileto. Há alguns na disputa muito mais perigosos do que outros. Penso especialmente em Saeed Jalili (negociador nuclear e chefe do Conselho de Segurança Nacional).

Por que Jalili?

Primeiro, as visões dele e de Khamenei são muito próximas. Comparando-o aos demais candidatos, ele não tem passado político e isso o fará seguir o líder supremo mais do que qualquer outro. Mais ainda, é ele quem tem as visões mais radicais sobre o Ocidente e a cultura ocidental, e vive em um mundo de ilusões, repetindo que avançamos sobre nossos inimigos - EUA, Israel, etc - e aqueles, dentro do Irã, que pedem conciliação querem nos fazer recuar. Essa visão levará a mais sanções.

E como o sr. avalia as sanções ao Irã. São um instrumento de pressão ou de punição coletiva?

Essas devastadoras sanções econômicas estão, na verdade, punindo o povo iraniano, e não o regime da república islâmica. Em dois anos, a receita iraniana com a venda de petróleo virou um terço do que era. Na semana passada, os EUA impuseram sanções à indústria automobilística. O que isso tem a ver com o programa nuclear? Essas medidas significam vasto desemprego, escalada inflacionária, depressão econômica e o colapso interno. Congressistas americanos prepararam um plano que condiciona o fim das sanções à mudança de regime no Irã. Treze anos de sanções econômicas no Iraque mataram cerca de meio milhão de crianças, mas Saddam Hussein não caiu. Ele só foi derrubado depois de um ataque militar, lançado com base em mentiras. Relatórios das agências de inteligência dos EUA publicados em 2007, depois em 2011 e 2012, atestam que o programa nuclear militar iraniano não avança desde 2003. O Irã é membro do tratado de Não Proliferação Nuclear, é submetido a uma constante vigilância e, segundo o tratado, tem direito de enriquecer urânio. A melhor política é uma que livre o Oriente Médio de armas nucleares. Todos os países da região, à exceção de Israel, concordam com isso.

Muitas vozes no Ocidente e mesmo no mundo árabe defendem uma "mudança de regime" no Irã. Como o sr. vê isso?

Eu considero a república islâmica ilegítima em razão das várias formas de discriminação que ela impõe, das violações dos direitos humanos e da falta de democracia. Mas nosso maior problema é como conduzir uma transição pacífica da ditadura para um modelo de democracia com base na liberdade e no respeito aos direitos humanos. Admiro modelos de transição como o Brasil, Chile e África do Sul, mas não políticas de "mudança de regime" pela via militar, como no Afeganistão e Iraque. Transições levaram à democracia. A via militar não só fracassou em construir a democracia, como destruiu países.

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