Thomas Coex/AFP
Thomas Coex/AFP

Mesmo com alta de casos, Europa está aprendendo a conviver com o coronavírus

Do conflito direto à contenção de uma guerra fria, França e boa parte do continente optam pela coexistência

Norimitsu Onishi, The New York Times

17 de setembro de 2020 | 03h30

PARIS — No começo da pandemia, o presidente Emmanuel Macron exortou os franceses a travarem uma “guerra” contra o coronavírus. Hoje, sua mensagem recomenda “aprender a conviver com o vírus".

Do conflito direto à contenção de uma guerra fria, a França e boa parte do restante da Europa optaram pela coexistência conforme o número de infectados segue aumentando, o verão dá lugar a um outono cheio de riscos, e a possibilidade de uma segunda onda assombra o continente.

Abandonada a esperança de erradicar o vírus ou desenvolver uma vacina em questão de semanas, os europeus decidiram voltar ao trabalho e à escola, no geral, levando suas vidas tão normalmente quanto o possível em meio a uma duradoura pandemia que já matou quase 215 mil no continente.

A abordagem contrasta muito com a dos Estados Unidos, onde as restrições anunciadas para proteger as pessoas do vírus causaram divisão política e muitas regiões levaram adiante a reabertura de escolas, do comércio e dos restaurantes antes de implementar protocolos básicos de controle. O resultado é um número de mortes quase tão alto quanto o da Europa, mas em meio a uma população muito menor.

No geral, os europeus estão colocando em prática os ensinamentos da fase inicial da pandemia: a necessidade de usar máscaras e manter o distanciamento social, a importância dos testes e do rastreamento, as vantagens fundamentais de uma reação ágil e local. Aplicadas com maior ou menor rigor conforme o necessário, todas essas medidas têm como objetivo evitar o tipo de lockdown nacional que paralisou o continente e derrubou economias no início do ano.

“É impossível deter o vírus", disse Emmanuel André, importante virólogo da Bélgica e ex-porta-voz da força-tarefa de combate à covid-19 do governo. “A questão é manter o equilíbrio. E temos poucas ferramentas à disposição para isso.” E acrescentou: “As pessoas estão cansadas. Não querem mais saber de guerra".

Uma linguagem marcial deu lugar a garantias mais comedidas.

“Estamos na fase de convivência com o vírus", disse Roberto Speranza, ministro da saúde da Itália, primeiro país europeu a anunciar o lockdown em escala nacional. Em entrevista ao jornal La Stampa, Speranza disse pensar que, embora “uma taxa de infecção igual a zero não exista", a Itália estava agora melhor equipada para lidar com um surto de infecções. “Não teremos outro lockdown", disse.

Mas os riscos perduram.

As novas infecções aumentaram muito nas semanas mais recentes, especialmente na França e na Espanha. Na semana passada, a França registrou mais de 10 mil casos em um único dia. O salto não é surpreendente, já que o número de testes sendo realizados — atualmente cerca de 1 milhão por semana — aumentou constantemente, chegando agora a 10 vezes o que foi no segundo trimestre.

O ritmo de aproximadamente 30 mortes por dia é uma pequena fração daquele visto no auge, quando centenas de pessoas - e às vezes mais de mil - morriam diariamente no país. Isso porque os infectados agora são mais jovens, e as autoridades de saúde aprenderam a oferecer um tratamento melhor para a covid-19, disse William Dab, epidemiólogo e ex-diretor nacional de saúde da França.

“O vírus ainda está circulando livremente, controlamos mal a cadeia de transmissão e, inevitavelmente, pessoas que correm mais risco, como os idosos, os obesos e os diabéticos, acabarão afetados", disse Dab.

Também na Alemanha, os jovens representam uma fatia desproporcional dos novos casos e infecções.

Mesmo com as autoridades de saúde alemãs testando mais de 1 milhão de pessoas por semana, teve início um debate a respeito da relevância das taxas de infecção em se tratando de retratar o estado atual da pandemia.

No início de setembro, apenas 5% dos casos confirmados tiveram que buscar tratamento no hospital, de acordo com dados das autoridades de saúde do país. Em abril, durante o auge da pandemia, até 22% dos infectados acabavam precisando de atendimento hospitalar.

Hendrik Streeck, diretor de virologia em um hospital de pesquisa da cidade alemã de Bonn, alertou que a pandemia não deve ser julgada apenas pelo número de infectados, e sim pelo número de mortes e hospitalizações.

“Chegamos a uma fase em que, sozinho, o número de infecções não revela muito", disse Streeck.

Boa parte da Europa estava despreparada para a chegada do coronavírus, carecendo de máscaras, kits de teste e outros equipamentos básicos. Até países que tiveram resultado melhor do que os demais, como a Alemanha, tiveram um número de mortos muito maior do que países asiáticos muito mais próximos da origem da pandemia, em Wuhan, na China, que reagiram mais rapidamente.

Os lockdowns nacionais ajudaram a controlar a pandemia na Europa. Mas a proporção de infectados voltou a aumentar ao longo do verão depois que os países reabriram e as pessoas - especialmente os jovens - retomaram a socialização, frequentemente deixando de lado as regras de distanciamento social.

Mesmo com a alta nas infecções, os europeus retornaram ao trabalho e à escola este mês, criando mais oportunidades para a disseminação do vírus.

Em vez de aplicar lockdowns nacionais sem se preocupar com diferenças regionais, as autoridades começaram a responder mais rapidamente a focos locais com medidas específicas, mesmo em um país altamente centralizado como a França.

Na segunda feira, por exemplo, as autoridades de Bordeaux anunciaram que, diante da alta nas infecções, as reuniões particulares seriam limitadas a 10 pessoas, restringindo as visitas aos asilos e proibindo fregueses nos bares fora das mesas.

Na Alemanha, enquanto o novo ano letivo teve início com aulas presenciais obrigatórias em todo o país, as autoridades alertaram que eventos tradicionais, como o carnaval e os mercados de Natal, podem ser limitados ou até cancelados. Os jogos de futebol da Bundesliga continuarão a ser disputados sem torcida até o fim de outubro, no mínimo.

Na Grã-Bretanha, onde o uso de máscaras não é tão comum nem tão exigido, as autoridades adotaram regras mais rigorosas para reuniões de família em Birmingham, onde as infecções estão aumentando. Na Bélgica, as pessoas são obrigadas a limitar suas atividades sociais a uma bolha de até seis pessoas.

Na Itália, o governo isolou vilarejos, hospitais e até abrigos para imigrantes com o objetivo de conter focos de contágio. O epidemiólogo Antonio Miglietta, que rastreou os contatos em um edifício sob quarentena em Roma, em junho, disse que os meses de combate ao vírus ajudaram as autoridades a acabar com os focos antes que eles fujam ao controle, evitando uma situação como a vista no norte da Itália este ano.

“Aprendemos a responder", disse.

No auge da pandemia, a maioria das pessoas na França criticava muito a resposta do governo. Mas pesquisas de opinião mostram que a maioria agora acredita que o governo será capaz de lidar com uma segunda onda melhor do que lidou com a primeira.

Jérôme Carrière, policial em visita a Paris vindo de Metz, no norte da França, disse que o fato de a maioria agora usar máscaras era um sinal positivo.

“No começo, como todos os franceses, ficamos chocados e preocupados", disse Carrière, 55 anos, acrescentando que dois amigos mais velhos da família morreram de covid-19. “Então, nós nos adaptamos e retomamos nossas vidas normais.”/ TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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