Julia Lindner/Estadão
Julia Lindner/Estadão

Mesmo com mudanças na lei, mulheres ainda enfrentam restrições na Arábia Saudita

Reformas do príncipe Mohamed bin Salman tentam projetar imagem moderna do país, mas muitas ainda lutam por mais abertura

Julia Lindner, enviada especial a Riad

03 de novembro de 2019 | 10h00

RIAD - Quando Zuhur, de 23 anos, se prepara para ir ao trabalho, ela leva consigo o “niqab”, um pedaço de pano preto que deixa apenas os olhos à mostra. Além de cobrir o corpo, usar o acessório é uma das condições para se manter no emprego de vendedora. Ao circular por áreas de comércio da elite de Riad, é possível verificar que a exigência não é restrição de apenas uma loja, mas faz parte do cotidiano da capital da Arábia Saudita.

Desde 2016, as mulheres sauditas passaram pelo início de uma transformação social. Até então, elas eram legalmente proibidas de viajar sozinhas, trabalhar e ter acesso a serviços básicos de saúde e educação sem a permissão de um homem. Também não podiam obter carteira de motorista ou solicitar a emissão de documentos por conta própria. 

Capitaneada pelo príncipe herdeiro Mohamed bin Salman, a ideia é passar a imagem de maior abertura. A iniciativa se intensificou após ele assumir responsabilidade pela morte do jornalista Jamal Khashoggi, no ano passado, embora ainda negue ser o mandante. Ele assumiu a responsabilidade pelo crime porque ele ocorreu sob "sua guarda", mas nega ter sido o mandante.

A inserção das mulheres sauditas no mercado de trabalho faz parte do programa Visão 2030, que tem como meta ampliar ampliar a mão de obra feminina de 22% para 30% na próxima década. A nova política do governo também se compromete a fornecer oportunidades iguais para homens e mulheres. Na prática, questões culturais e religiosas ainda limitam o acesso aos direitos recém adquiridos.

A jovem Zuhur, que pediu para o seu nome completo não ser divulgado, conta que esperou pelas mudanças a vida toda, mas ainda quer vê-las implementadas por completo. Uma delas é ter a liberdade de decidir o que vestir. “Há poucos anos, era impossível ver uma mulher sem o rosto coberto usando qualquer cor que não fosse preto. Agora, as pessoas se tornaram mais abertas, especialmente a nova geração. Acredito que em alguns anos veremos outras cores nas ruas”, disse.

Como mulher, ela já usou de tudo: abaya (para cobrir o corpo), niqab (para cobrir o rosto) e hijab (para cobrir os cabelos) na cor preta desde os 8 anos de idade. “Não entendia o porquê, só sabia que tinha de esconder o rosto, usar preto e nunca conversar ou interagir com homens, ou algo ruim aconteceria comigo.”

Na época, início dos anos 2000, o pai disse a mãe que ela teria que "banir" a filha de interagir com amigos do sexo oposto. A separação de homens e mulheres até mesmo no ambiente escolar ainda é uma realidade para os sauditas. Somente este ano o governo passou a permitir que um número limitado de escolas privadas inicie a experiência de abrir salas mistas no ensino primário.

Já adulta, Zuhur ouviu do chefe que teria que usar o niqab para cobrir o rosto ou não conseguiria o trabalho como vendedora. "Como precisava do emprego, eu disse que sim".

Em outra parte da cidade, Reem Abdullah, 29 anos, saía de uma entrevista de emprego na sede do Fundo de Investimento Público da Arábia Saudita. Vestindo uma abaya, sem cobrir o rosto e com parte dos cabelos cobertos, ela afirma que as mulheres merecem as mudanças que têm ocorrido.

Reem está entre as primeiras sauditas a conseguirem a carteira de habilitação, mas afirmou que ainda sente medo de dirigir um automóvel e optou por manter o motorista particular para se deslocar pela cidade. A Arábia Saudita foi o último país a proibir as mulheres de dirigir, em junho de 2018. Apesar da liberação, ainda é mais caro para as mulheres obterem a licença do que para os homens.

A brasileira Marua Hindi, 23, que trabalha como professora de inglês particular em Jidá, afirma que já é possível perceber mudanças principalmente no modo de se vestir das mulheres devido ao número maior de estrangeiros na cidade.  Na visão dela, no entanto, a novidade pode ser ruim. "Acho que a cultura está se perdendo", avaliou.

Marua também considera que, na prática, as mulheres já exercem os seus direitos na Arábia Saudita. "Além das viagens (que dependiam de autorização), elas fazem de tudo sem autorização de um homem. Todas, em geral, são bem respeitadas aqui."

Ao visitar o país, o presidente Jair Bolsonaro chamou o príncipe herdeiro de "irmão" e disse que se apaixonou pela Arábia Saudita. Ao ver jornalistas brasileiras usando o traje típico, o presidente disse que elas estavam "mais bonitas".

Antes da viagem de Bolsonaro a Riad, o Itamaraty orientou as jornalistas a usarem a abaya, vestimenta larga e longa, que não marca o corpo e cobre dos pés a cabeça. Caso não fosse possível comprar o traje tradicional, seria recomendado usar roupas que seguissem o mesmo padrão e consideradas modestas: cores escuras, sem decotes, transparências ou com modelagem justa. De acordo com a recomendação, esta seria a única forma de estarem "100%" seguras. 

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