Mesmo enfraquecido, general tinha 3ª força política de Assunção

Cenário: Roberto Simon

O Estado de S.Paulo

04 de fevereiro de 2013 | 02h03

O general paraguaio Lino Oviedo gostava de receber jornalistas brasileiros no casarão onde morava, em um bairro de Assunção mais afastado. Aos visitantes, oferecia café ou chá, uma cópia de sua autobiografia de capa verde em papel A4 e histórias sobre suas aventuras nos quartéis e na política, da ditadura de Alfredo Stroessner até os últimos anos no Congresso paraguaio. Baixo e sisudo, bem conservado para seus quase 70 anos, só respondia em seu português espanholado. Às perguntas mais espinhosas, soltava brados do tipo "A democracia Paraguaia é estável como uma pedra, talvez a mais estável da América do Sul" ou "Nasci um democrata e um democrata morrerei". Mais calmo, deslizava um lenço sobre a testa para conter o suor e voltava à conversa.

Oviedo foi acusado de participar de praticamente todas as tramas palacianas do Paraguai nas últimas três décadas, incluindo o golpe de 1989, que ceifou a ditadura Stroessner, a rebelião de 1996, contra o presidente Juan Carlos Wasmosy, e a sublevação de 2000, contra González Macchi. Mas a polêmica em torno do general extrapolavam a política.

Não é incomum escutar de políticos e empresários paraguaios detalhes sobre supostas atividades criminosas de Oviedo, incluindo narcotráfico, contrabando e lavagem de dinheiro - embora a Justiça nunca o tenha condenado por crimes comuns. A resposta às acusações de malfeitorias, ele deu no nome do partido que fundou em 2002: a União Nacional dos Cidadãos Éticos, a Unace.

O general Oviedo dos últimos tempos já não tinha tanto poder como nos anos 90, quando dava as cartas na política paraguaia mesmo do cárcere - no Brasil ou no Paraguai. À frente da Unace, terceira força política de Assunção, ele ajudou a tirar em 24 horas Fernando Lugo do palácio presidencial Los López, em junho. Deu apoio incondicional ao vice-presidente Federico Franco, do Partido Liberal, que tomou posse imediatamente após Lugo ser destituído. Quando, em retaliação, Brasil, Argentina e Uruguai suspenderam seu país do Mercosul, o campo oviedista espalhou boatos de que Assunção negociava "bases militares" com os EUA para a surpresa do Pentágono.

Oviedo, porém, estava em terceiro na disputa pela eleição presidencial de abril, com pouquíssimas chances de vencer. O grande favorito é o colorado Horácio Cartes, considerado pela diplomacia americana "o homem que mais lava dinheiro no Paraguai", segundo documentos divulgados pelo WikiLeaks. Cartes também seria um dos maiores contrabandistas de cigarros do mundo. Ele nega ambas as acusações.

Desde 2008, quando acabou em terceiro lugar na eleição presidencial, a força de Oviedo estava no subterrâneo - nos bastidores do Congresso e entre setores militares. Ao falar em "atentado", oviedistas buscam explorar o efeito político da queda do helicóptero. Tentam, sobretudo, garantir que o mito de Oviedo sobreviva à morte do general.

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