Frank Augstein / AP
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Mesmo envolvido em polêmicas, base conservadora permanece leal a Johnson

Durante convenção do Partido Conservador, Boris Johnson seguiu com sua defesa agressiva do Brexit e sua determinação em deixar a UE no dia 31

Redação, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2019 | 12h08

MANCHESTER, REINO UNIDO - Ele é acusado de incitar violência, enganar a rainha Elizabeth II, atropelar a Constituição britânica e estar envolvido em um conflito de interesse ao negociar com uma empresária americana. Mas no domingo, 29, o primeiro-ministro, Boris Johnson, desfrutava do apoio de aliados no começo de uma das convenções mais extraordinárias já realizadas pelo Partido Conservador.

O evento pode ter relação tanto com quem estava nele, na cidade de Manchester, quanto com quem não estava. O encontro foi realizado sem a presença de figuras importantes do partido que acabaram expurgadas por Johnson por desafiá-lo na questão do Brexit - eles tentaram evitar uma saída do Reino Unido da União Europeia (UE) sem um acordo formal.

Uma delas, Philip Hammond, ex-ministro de Finanças, escreveu ao jornal London Times que seria a primeira convenção que ele perdia em 35 anos. Hammond descreveu seu antigo partido como “irreconhecível” e o qualificou como um refúgio de “puritanismo ideológico que não aceita dissidências e é cada vez mais estridente em seu tom”.

Mas a defesa agressiva de Johnson com relação ao Brexit, e sua determinação em deixar a UE no dia 31 de outubro, é música para os ouvidos dos ativistas do Partido Conservador. Ao chegar à cidade de Manchester no domingo, o premiê deixou claro que não pretende mudar de atitude.

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“A melhor forma de acabar com isso é conseguir o Brexit no dia 31 de outubro e seguir em frente”, disse Johnson. “E é isso que vamos fazer.”

Caminho para a vitória

Os conservadores veem na política do premiê um caminho para a vitória nas eleições gerais. “Há uma diferença entre o partido parlamentar, no qual há muitas pessoas preocupadas, e a filiação popular”, afirma Tim Bale, professor de Política na Universidade de Londres.

Ele explica que “uma grande maioria dos membros do Partido Conservador dizem que seriam mais felizes se deixassem a União Europeia sem um acordo, e a maioria votou por Boris Johnson”.

As convenções do partido são vistas por ativistas como eventos para aumentar a moral do grupo, e Johnson é garantia de uma boa recepção. A maioria dos membros do Partido Conservador, segundo Bale, “apoiarão Boris Johnson e sua política para o Brexit, e o perdoarão por sua linguagem e comportamento”. Isso pode ser útil para o premiê, especialmente nos dias de hoje. 

Caso com empresária

No domingo, ele sustentou que agiu com “propriedade” quando questionado se havia sido transparente quando era prefeito de Londres e se foi dado dinheiro público a uma empresa comandada por sua amiga, Jennifer Arcuri, uma empresária americana.

Johnson defendeu suas ações em meio a reportagens que apontam que Jennifer disse a amigos que, na época, em 2012, ela tinha um caso com o prefeito.

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Ao abordar outra questão de improbidade, o governo britânico qualificou no domingo como “inverdade” o relato da jornalista Charlotte Edwardes, do jornal Sunday Times, de que Johnson teria colocado a mão na coxa dela por debaixo da mesa durante um jantar em 1999, quando ele era editor da revista Spectator. O premiê foi convocado a explicar seu comportamento no Parlamento.

Moderado nos debates

À emissora britânica BBC, ele foi mais moderado com a linguagem utilizada nos debates sobre o Brexit, rejeitando argumentos de que sua retórica poderia incitar violência e descrevendo a si mesmo como um “modelo de restrição”.

Ele se negou a se desculpar por usar a palavra “fraude” para responder à parlamentar opositora Paula Sherriff depois que ela alegou ter recebido ameaças de morte, ressaltando que ele falava de outro assunto.

O primeiro-ministro também se negou a comentar os relatos da imprensa de que ele teria se desculpado com a rainha Elizabeth II após a Suprema Corte decidir, na semana passada, que o conselho dele a ela sobre a suspensão do Parlamento era ilegal.

Johnson ainda reforçou sua promessa de deixar a UE no dia 31, ressaltando que encontraria meios de contornar uma lei aprovada no Parlamento para evitar uma saída “sem acordo” desordenada.

Estratégia e planejamento

Com o Parlamento voltando inesperadamente às sessões - a decisão de Johnson de suspendê-lo foi rejeitada na semana passada na Suprema Corte - os parlamentares do Partido Conservador na convenção de domingo aguardavam para correr de volta a Londres se necessário, enquanto seus adversários políticos planejavam seus próximos passos contra o premiê.

Sem dúvida, Johnson deixou alguns de seus deputados alarmados com sua linguagem descompromissada e sua recusa em mostrar arrependimento após a decisão da Suprema Corte.

Em Manchester, ativistas do Partido Conservador se preparam para uma eleição e acreditam que eles têm ao menos uma estratégia de vitória depois de dois anos desanimadores à deriva da antecessora de Johnson, Theresa May.

Reunindo apoio

Os assessores do premiê querem reunir eleitores que, em 2016, optaram no referendo por deixar a UE, e neutralizar a ameaça do Partido Brexit, de Nigel Farage. Com isso, o principal slogan da convenção conservadora é “Conseguir o Brexit”.

Johnson ainda quer convencer os eleitores que seu governo investiria em serviços públicos, incluindo saúde e segurança, para corrigir cortes feitos durante o período de austeridade que se seguiu após o colapso financeiro no Reino Unido.

Peter Smallwood, membro do partido em Londres, disse que os conservadores “são muito, muito bons, quando convém, em se unir”, e qualificou o escândalo envolvendo Jennifer e as falas sobre a retórica de Johnson como irrelevantes.

Molly Samuel-Leport, também membro do partido, afirmou: “Os membros e o povo apoiarão Boris Johnson porque ele é um líder forte. As pessoas querem o Brexit, e ele é o único que parece falar por elas”. / NYT

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