Ahmed Hayman
Ahmed Hayman

Mesquita no Cairo vira necrotério

Parentes resfriam os cadáveres com barras de gelo em meio ao escaldante verão do Egito

Andrei Netto, enviado especial ao Cairo, O Estado de S. Paulo

15 de agosto de 2013 | 22h43

O cenário era de horror na tarde dessa quinta-feira no norte do Cairo, onde parentes esperavam por atestados de óbito resfriando corpos com barras de gelo. Para ingressar na mesquita de Imam, em Nasr City, era necessário tirar os sapatos, como em todos os templos muçulmanos. Mas caminhar de meias pelo carpete fazia com que os visitantes pisassem em poças que misturavam água gelada, detergente e sangue. Segundo o médico legista que emitia as certidões de óbito, mais de 400 corpos jaziam no chão, enrolados em lençóis brancos e conservados com barras de gelo em meio ao verão egípcio.

Dezenas de corpos estavam mal cobertos, expondo ferimentos de disparos e restos humanos carbonizados durante a ofensiva das forças de segurança do regime golpista. Dentro e fora do prédio, a atmosfera era de caos. No exterior, milhares de pessoas gritavam palavras de ordem contra o general Abdel Fattah al-Sisi, chefe do Estado-Maior e inimigo da Irmandade Muçulmana - a polícia entrou à noite no local em busca de líderes do movimento.

De acordo com o legista Mustafá Abdelghani, de 34 anos, era impossível determinar o número de cadáveres aglomerados no prédio. "A maioria morreu em razão de ferimentos por disparos na cabeça, pescoço e coração. Depois de feridos, muitos foram carbonizados", explicou o legista ao Estado.

A concentração de cadáveres em um local quente e úmido, sem ventilação e com temperatura próxima dos 30º, fazia com que a atmosfera tivesse um ar pesado, com um odor de putrefação encoberto por jatos de detergente que dezenas de homens lançavam no ambiente. Segundo Abdelghani, a emissão de atestados de óbito só pôde começar, pela lei egípcia, 20 horas após a morte, prazo que expirou ao longo do dia.

Caminhando entre os cadáveres e parentes, alguns dos quais dormindo no carpete, derrubados pela exaustão, centenas de voluntários prestavam todo tipo de serviços. Alguns levantavam os lençóis brancos, descobrindo os corpos ao verem jornalistas estrangeiros, como se precisassem provar que, de fato, se tratava de corpos. Outros traziam pedaços de vítimas carbonizadas enroladas em tecidos para atestar que houve crueldade no ataque da polícia e do Exército na quarta-feira. Outros apenas circulavam, demonstrando solidariedade a quem passava.

"Estou aqui porque essas pessoas são meus irmãos. Eu também estou sofrendo e apoiando a causa", disse o estudante Motassim Mohamed, de 23 anos. "Não queremos os militares no poder. Queremos liberdade e democracia. Os ditadores voltaram, mas vamos seguir lutando para manter a revolução viva."

Em contraste com o clima de luto, revolta e mobilização de Nasr City, no restante do Cairo o dia foi de pouco movimento nas ruas. O governo decretou feriado para o funcionalismo público. A partir das 19 horas, teve início o toque de recolher, uma das repercussões do estado de emergência decretado pelo Ministério do Interior.

No entanto, mesmo depois do horário, o fluxo de veículos no Cairo continuou intenso, desrespeitando a instrução do Exército, que mantinha presença ostensiva em vários pontos da capital. Só por volta das 23h30 o tráfego diminuiu.

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