Mesquita ou modernidade?

A paz no Oriente Médio só prevalecerá se os países evitarem os extremos ideológicos e os excessos políticos

Michel Rocard *, Project Syndicate - O Estado de S.Paulo

26 Agosto 2013 | 02h01

O que ocorreu com a Primavera Árabe? Quando manifestações irromperam na Tunísia, no Egito e na Líbia, que acabaram por derrubar três antigas e desgastadas ditaduras, ninguém sabia que forças, instituições e sistemas surgiriam a partir da demanda dos manifestantes por democracia. Contudo, apesar do caráter sem precedentes e imprevisível dos acontecimentos - ou talvez em razão deles -, as esperanças eram grandes.

O que ocorreu a partir daquele momento deixou claro o que todos sabiam (ou deveriam saber) o tempo todo: nada que tenha relação com mudança de regime é simples. Nenhum dos três países encontrou até agora uma solução institucional estável que consiga aplacar a tensão interna e responder eficazmente à demanda popular.

Outros países da região, incluindo o Iêmen e alguns Estados do Golfo, também sofreram abalos de intensidade variada. A violência sectária, de novo, vem consumindo o Iraque e os confrontos entre as facções que lutam contra o regime na Síria são cada vez mais frequentes, com os islamistas desejando assumir a liderança antes de uma transição política que ocorreria com o colapso do governo. Mesmo no Marrocos, um rei com poder absoluto e "comandante da fé" foi forçado, diante da intensa indignação da sociedade, a adotar um sistema mais aberto ao Islã político.

Da mesma maneira, fatos ocorridos em duas potências não árabes da região sugerem que ninguém está imune à instabilidade. Na Turquia, protestos recentes colocaram em evidência a oposição crescente ao governo arrogante e às decisões políticas perniciosas, com base na religião, do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan. No Irã, grande parte da classe média apoiou o mais moderado dos candidatos nas eleições presidenciais de junho.

Diversos fatores relacionados constituem a base da instabilidade crônica da região. Um deles é o subdesenvolvimento. Embora o petróleo tenha tornado alguns príncipes e presidentes assombrosamente ricos, o restante da população teve poucos benefícios. A fome é generalizada e, na verdade, a pobreza e a desigualdade têm servido de combustível para a mobilização popular.

No entanto, os protestos políticos também refletem a crescente rejeição a governos arbitrários e ditatoriais. Apesar da falta de uma dissidência aberta, a globalização deixou claro para todos que o desenvolvimento econômico exige mudanças de regime.

Finalmente, o Islã político é um fator comum a todos os conflitos da região e não deve - como ocorre com frequência - ser analisado separadamente das dificuldades econômicas desses países. Basicamente, o islamismo, uma das grandes religiões do mundo, que hoje tem quase um quarto da humanidade de fiéis, não acompanhou o desenvolvimento verificado em outras partes.

Não existe uma maneira simples de sair do subdesenvolvimento sem contrariar estilos de vida, hábitos e relações sociais tradicionais. E, na verdade, as religiões também não resistem à pressão das mudanças econômicas.

No caso dos judeus, em razão da falta de uma terra natal, o desenvolvimento ocorreu na diáspora, com a emancipação civil na Europa dando origem a movimentos reformadores destinados a reconciliar a fé e a modernidade. Similarmente, a Cristandade, católica ou ortodoxa, bloqueou o desenvolvimento econômico durante séculos, até que reformadores redefiniram as posições teológicas sobre dinheiro e atividade bancária, a natureza do progresso, da ciência e da tecnologia. Não foi por acaso que a reforma religiosa na Escandinávia, na Alemanha, Grã-Bretanha, Holanda e EUA deu nascimento o capitalismo global de hoje.

Essa dinâmica se estende mesmo para uma China oficialmente ateia. O comunismo ortodoxo, um simulacro secular perfeito da religião, tem sido a principal vítima do desenvolvimento desde que o país iniciou suas reformas de mercado, em 1979.

O Islã também tem seus reformadores. Analisemos a missão conferida a Rifa'a al-Tahtawi, o grande sábio egípcio enviado para a Europa por Mohamed Ali, em 1826, para aprender a civilização ocidental e tentar forjar um entendimento entre ela e o Islã. Em todo o mundo árabe, sem exceção, reformadores foram presos, mortos ou reduzidos à impotência política.

Na falta de algo análogo à Revolução Industrial do Ocidente, os muçulmanos (e especialmente os árabes), nos últimos dois séculos, sofreram todo tipo de humilhações e uma colonização parcial. O legado disto, o ressentimento, a vergonha e a cólera são fatores do atual mal-estar da região.

Por isso, algumas das manifestações não deixaram nenhuma dúvida de que muitas pessoas vêm se afastando completamente da religião. Isto ficou visível no Egito, na Tunísia e na Turquia. No entanto, a sombria realidade do mundo islâmico é que, em tempos de incerteza geral, as forças da tradição tendem a falar mais alto do que as da mudança.

A paz na região, imensa e estrategicamente vital, só pode prevalecer se os países conseguirem, apesar dos tumultos, evitar os extremos ideológicos e os excessos políticos. A importância dessa verdade deve ser bastante clara para os ocidentais, cuja civilização moderna nasceu da dissensão religiosa que de início enfrentou a violência da Inquisição e da Contrarreforma.

Se o Islamismo, particularmente no Oriente Médio, vive numa trajetória similar, a instabilidade no longo prazo na região está garantida. A compreensão mútua é a única maneira de abrandar as consequências.

*Michel Rocard é ex-primeiro ministro da França, ex-líder do Partido Socialista.

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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