Mesquita xiita do Brás vira centro iraniano de votação

Embaixada de Teerã coloca urna nos fundos de templo religioso para atender à comunidade que vive em São Paulo

ROBERTO SIMON, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2013 | 02h04

Após depositar seu voto, ontem, o iraniano Ahmed Najafabadi, de 58 anos, pediu que o próximo presidente melhore a economia e torne mais transparente o programa nuclear, mostrando às grandes potências que não há o que temer. O detalhe: Najafabadi estava no meio do bairro do Brás, em São Paulo, onde a embaixada do Irã improvisou uma seção eleitoral nos fundos de uma mesquita xiita.

Para os iranianos que ficassem na dúvida, havia colado na porta de vidro do local - embaixo de retratos do pai da Revolução Islâmica, o aiatolá Ruhollah Khomeini, e de seu sucessor como líder supremo, Ali Khamenei - um aviso em português e em farsi: "21.ª eleição presidencial da República Islâmica do Irã - 14 de junho de 2013, São Paulo".

Najafabadi chegou no final da manhã para votar, mas esqueceu seu documento iraniano - passaporte ou carteira de identidade valiam. Ele ficou três horas esperando enquanto um motoboy ia pegar os papéis.

"Aguardei porque tenho responsabilidades como cidadão do Irã", disse, sem revelar em quem havia votado. Nascido em Isfahan, ele se casou com uma brasileira que conheceu nos EUA e há 28 anos mora em São Paulo. É funcionário de uma empresa de autopeças.

O procedimento de votação era simples. Não havia listas de eleitores e bastava apresentar o documento ao mesário, que preenchia os dados na cédula. Por último, o eleitor escrevia à caneta o nome do candidato e depositava o voto na urna.

Segundo o responsável pela mesa de votação, o diplomata iraniano Mehdi Zanjani, cerca de 20 pessoas haviam comparecido até às 15 horas - a urna ficaria aberta das 8 horas às 18 horas. Ele estima que a comunidade iraniana em São Paulo não passe de 200 pessoas.

Os três mesários eram voluntários e, com o baixo movimento, passavam a maior parte do tempo jogando conversa fora. Foi a segunda vez que Mohsen Ebrahim, de 55 anos, aceitou a tarefa. "Mesmo estando em outro país, sinto que tenho essa obrigação de cidadão", disse ele, que divide o tempo entre sua agência de turismo e a Liga Nacional de Kung fu, onde representa o estilo iraniano da luta, conhecido como "Tao".

Aos 22 anos, Ebrahim saiu às ruas para ajudar a fazer a Revolução Islâmica e, no ano seguinte, quando Saddam Hussein invadiu o Irã, foi parar no front. Poucos depois, conheceu uma portuguesa que trabalhava na Varig, com quem se casou em Teerã, enquanto a cidade era bombardeada por mísseis iraquianos. Em 1986, o casal mudou-se para o Brasil. "Nós, iranianos, conhecemos de perto a guerra e não queremos mais isso. Portanto, temos de sentar e negociar a questão nuclear", disse.

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