Metade do novo gabinete francês será de mulheres

Hollande cumpre promessa de campanha de formar ministério paritário; maioria dos integrantes não tem nenhuma experiência no cargo

ANDREI NETTO, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

17 de maio de 2012 | 07h49

Um dia depois de assumir o poder na França, o presidente François Hollande cumpriu uma promessa de campanha e anunciou a formação de um gabinete "paritário", com igual número de homens e mulheres. Dos 34 ministros convidados para assumir postos do Executivo pelo premiê Jean-Marc Ayrault, 17 são mulheres, algumas em pastas-chave, como a Justiça.

Os destaques do novo gabinete são o retorno do ex-primeiro-ministro Laurent Fabius, que assumirá o Ministério de Relações Exteriores, e de Pierre Moscovici, na pasta da Economia.

Além da paridade, o primeiro gabinete de Hollande e Ayrault é marcado pela inexperiência. O Partido Socialista (PS) estava afastado da presidência havia 17 anos e da chefia de governo havia 10 anos, quando o premiê Lionel Jospin abandonou a "coabitação" com o presidente Jacques Chirac.

Tanto tempo teve um custo: 30 dos 34 ministros de Hollande nunca exerceram a função antes, a começar pelo próprio Ayrault.

Os nomes mais importantes do governo serão o chanceler Fabius, o ministro da Economia Moscovici, o da Educação, Vincent Peillon, o do Interior, Manuel Valls, e a da Justiça, Christine Taubira. Para a Saúde, foi escolhida Marisol Touraine.

Para a pasta da Indústria, o premiê optou por Arnaud Montebourg, pré-candidato derrotado nas primárias socialistas que defendia a "desglobalização". Ele terá a missão de lutar contra a transferência de indústrias da França para países com mão de obra mais barata. Favorito para assumir a Economia, Michel Sapin teve de se contentar com o Ministério do Trabalho. Na pasta da Defesa, assume Jean-Yves Le Drian, e na Cultura, Aurélie Fliippetti. Stéphane Le Foll fica com a pasta da Agricultura, enquanto Najad Belkacem foi escolhida porta-voz do Palácio do Eliseu.

Se são o destaque positivo, as mulheres também são o ponto negativo do governo. Duas ausências foram sentidas. A primeira é a da secretária-geral do PS, Martine Aubry, segundo lugar nas prévias do partido, que não aceitou nenhum cargo após ser preterida para o posto de premiê. Segundo Aubry, que já tinha comandado o Ministério do Trabalho nos anos 90 - criando a semana de 35 horas de trabalho -, "não haveria sentido estar no ministério". "É a decisão de Hollande e eu a respeito completamente", assegurou.

A repercussão política da decisão, entretanto, foi ruim, pois a secretária-geral é muito popular entre os militantes do PS, e o partido enfrenta em junho eleições parlamentares.

Outra ausência, essa já prevista, é a de Ségolène Royal, ex-mulher de Hollande e ex-candidata à presidência de 2007. Seu nome é agora especulado para ser a presidente da Assembleia Nacional a partir do pleito legislativo.

Também faltou espaço no gabinete de Ayrault para o prefeito de Paris, Bertrand Delanoë, que deixará seu posto em 2013 e não obteve um lugar entre os 34. Homossexual assumido, ele desejava tornar-se ministro da Justiça, cargo com o qual pretendia legalizar o casamento gay - uma das promessas de Hollande.

A formação desse gabinete, que reúne a nova geração de "notáveis" do PS, porém, pode ser sacudida pelas eleições parlamentares. Por decisão do premiê, todo ministro que se candidatar nas eleições legislativas e perder a disputa em seu distrito será demitido de suas funções. A mesma decisão havia sido adotada por Nicolas Sarkozy em 2007. Na ocasião, a grande vítima foi Alain Juppé, que permaneceria quase quatro anos afastado do governo, até retornar como chanceler, em 2011.

Ex-inimigo. Fabius, o novo chanceler, foi nomeado primeiro-ministro em 1984, quando tinha 37 anos, no governo do presidente socialista François Mitterrand. Ele também serviu como ministro das Finanças do ex-primeiro-ministro Lionel Jospin, entre 2000 e 2002.

Fabius foi inimigo de Hollande no passado. O político tratou Hollande com desdém em 2005 quando se enfrentaram por causa de uma disputa sobre a União Europeia. Fabius fez campanha pelo "não" em um referendo sobre um tratado constitucional que Hollande apoiava.

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