Stephen Smith/via REUTERS
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Metrôs do mundo viram zonas de alagamento por causa da crise climática

Inundações rápidas e mortais em vários países nas últimas semanas deixam claros os riscos que até mesmo as redes mais recentes enfrentam

Hiroko Tabuchi e John Schwartz/ The New York Times, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2021 | 08h00

NOVA YORK - Passageiros apavorados presos em vagões inundados em Zhengzhou, na China. Cascatas escorrendo pelas escadas até estações subterrâneas de Londres. Uma mulher andando com água turva na altura da cintura, para conseguir chegar a uma plataforma em Nova York.

Os sistemas de metrô de todo o mundo estão lutando para se adaptar às condições meteorológicas extremas provocadas pela mudança climática. Seus projetos, em geral baseados nas expectativas de outra era, não estão dando conta.

“É assustador”, disse Sarah Kaufman, diretora associada do Centro Rudin para o Transporte da New York University. “O desafio é: como podemos nos preparar para a próxima grande tempestade, que só deveria acontecer daqui a 100 anos, mas pode vir amanhã?”

O transporte público desempenha um papel crucial para reduzir as viagens de carro das grandes cidades, controlando as emissões que contribuem para o aquecimento global. Se os passageiros ficarem assustados com imagens de estações inundadas e começarem a evitar o metrô, preferindo carros particulares, isso pode, segundo especialistas em transporte, ter implicações importantes para a poluição do ar urbano e as emissões de gases de efeito estufa.

Algumas redes, como as de Londres e Nova York, foram projetadas e construídas há mais de um século. Embora alguns metrôs, como o de Tóquio, tenham conseguido reforçar suas defesas contra inundações, uma crise na China na semana passada mostra que até mesmo alguns dos sistemas mais novos do mundo também podem ser atingidos — o sistema de Zhengzhou, que foi inundado, não tem nem dez anos.

Renovar metrôs contra inundações é “uma tarefa enorme”, disse Robert Puentes, presidente do Eno Center for Transportation, um think tank sem fins lucrativos com foco na melhoria da política de transporte. “Mas quando você compara com o custo de não fazer nada, começa a fazer muito mais sentido”, disse ele. “O custo de não fazer nada é muito mais caro.”

As recentes inundações são um exemplo do tipo de clima extremo a ser enfrentado em todas as partes do mundo em decorrência da mudança do clima.

Poucos dias antes do pesadelo do metrô na China, as inundações na Alemanha mataram cerca de 160 pessoas. Grandes ondas de calor causaram severos estragos na Escandinávia, na Sibéria e na região Noroeste dos Estados Unidos. Há duas semanas, incêndios florestais no Oeste americano e no Canadá enviaram fumaça por toda a América do Norte, e levaram autoridades a disparar alertas de saúde em cidades como Toronto, Filadélfia e Nova York, enquanto o Sol assumia uma estranha tonalidade avermelhada.

Inundações repentinas também inundaram estradas e rodovias. O colapso de uma parte da Highway 1 da Califórnia, à frente do Oceano Pacífico, após fortes chuvas foi um lembrete da fragilidade das estradas.

Porém, inundações mais intensas representam um desafio particular para os sistemas de metrô antigos em algumas das maiores cidades do mundo.

Em Nova York, a Autoridade de Transporte Metropolitano investiu US$ 2,6 bilhões em projetos de resiliência, desde que o furacão Sandy inundou o sistema de metrô da cidade em 2012. Os investimentos incluem a fortificação de 3.500 aberturas de metrô, escadas e poços de elevador contra inundações.

Mesmo em um dia seco, uma rede de bombas remove cerca de 45 milhões de litros, principalmente de água subterrânea, do sistema. Ainda assim, as enchentes deste mês mostraram que o sistema continua vulnerável.

“É um desafio tentar trabalhar dentro das limitações de uma cidade com infraestrutura envelhecida, junto com uma economia se recuperando de uma pandemia”, disse Vincent Lee, diretor associado e diretor técnico de água da Arup, uma empresa de engenharia que ajudou a atualizar oito estações de metrô e outras instalações em Nova York após a tempestade de 2012.

O extenso metrô de Londres enfrenta desafios semelhantes. “Grande parte do sistema de drenagem de Londres é da era vitoriana”, disse Bob Ward, diretor de políticas do Grantham Research Institute on Climate Change and the Environment, em Londres.

Isso tem um efeito direto no sistema de metrô da cidade, ele diz. “O metrô simplesmente não é capaz de lidar no momento com o aumento das chuvas fortes que estamos experimentando como resultado das mudanças climáticas.”

Enquanto isso, a crise na China mostra que até mesmo alguns dos sistemas mais novos do mundo podem ser sobrecarregados. Como disse Robert Paaswell, professor de engenharia civil do City College de Nova York. “Os metrôs vão inundar. Eles vão inundar porque estão abaixo do solo.”

Os defensores do transporte público de massa nos Estados Unidos estão pedindo que fundos para alívio da pandemia sejam investidos no transporte público. “A escala dos problemas tornou-se maior do que nossos municípios e estados podem resolver”, disse Betsy Plum, diretora executiva da Riders Alliance, um grupo de defesa dos passageiros de metrô e ônibus.

Difícil dilúvio

Para ajudar a entender como funcionam as inundações subterrâneas, Taisuke Ishigaki, pesquisador do Departamento de Engenharia Civil da Universidade de Kansai em Osaka, no Japão, construiu a maquete de uma cidade com um sistema de metrô movimentado e, em seguida, desencadeou um dilúvio equivalente a cerca de 30 centímetros de chuva em um único dia.

Em minutos, a enchente adentrou por várias entradas do metrô e começou a jorrar escada abaixo. Apenas 15 minutos depois, a plataforma da maquete estava abaixo de 2,5 metros de profundidade, em uma sequência de eventos que Ishigaki ficou horrorizado ao ver se desenrolar na vida real em Zhengzhou.

Lá, as enchentes surpreenderam passageiros que ainda estavam nos vagões do metrô. Pelo menos 69 pessoas morreram na cidade e arredores, incluindo no mínimo 12 no metrô.

A pesquisa de Ishigaki agora auxilia um sistema de monitoramento de enchentes em uso pela extensa rede subterrânea de Osaka, onde câmeras especiais monitoram enchentes acima do solo durante chuvas fortes.

Quando a água está acima de um certo nível de perigo, ativam-se protocolos de emergência, e as entradas mais vulneráveis são fechadas (algumas podem ser fechadas em menos de um minuto), enquanto os passageiros são prontamente evacuados do metrô por outras saídas.

O Japão fez outros investimentos em sua infraestrutura de inundações, como cisternas subterrâneas e comportas nas entradas do metrô. No ano passado, a operadora ferroviária privada Tokyu, com apoio do governo japonês, concluiu uma enorme cisterna para capturar e desviar até 4.000 toneladas de escoamento de água na estação de Shibuya em Tóquio, um importante centro.

Ainda assim, se houver uma grande ruptura nos muitos rios que cortam as cidades japonesas, “mesmo essas defesas não serão suficientes”, disse Ishigaki.

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