Meu Estado judeu

Exigir que os palestinos reconheçam em Israel uma nação judaica é uma imbecilidade que afasta as partes

Roger Cohen*, O Estado de S.Paulo

02 de janeiro de 2014 | 02h05

U m ano termina, outro começa e é o momento de reminiscências e resoluções, arrependimento e esperança, listas do melhor e do pior, confissões, e também de perscrutar a bola de cristal. Grande parte de tudo isso é muito doloroso.

Não vou me queixar do Twitter. Não tenho nada novo a dizer sobre Miley Cyrus. Mas faço uma única previsão para 2014. Apesar de todos os esforços de John Kerry, esse será mais um ano em que a paz não será alcançada no Oriente Médio (e se estiver errado prometo uma penitência como a de Sísifo na eternidade).

Muitas coisas ruins ocorreram entre israelenses e palestinos recentemente. Vimos um forte aumento da violência. A libertação por Israel de 26 prisioneiros palestinos foi naturalmente recebida com alegria em Ramallah e por uma onda de mensagens via Twitter ao governo de Israel condenando a glorificação de terroristas.

Com a libertação surgiram rumores de que o governo de Binyamin Netanyahu anunciará planos para a construção de mais 1.400 habitações na Cisjordânia exatamente quando Kerry chegar para sua 10.ª visita à região em busca da paz. Isso enfureceu os palestinos. E também o fato de uma comissão ministerial israelense votar uma proposta de lei para construção de assentamentos no Vale do Jordão. Saeb Erekat, chefe da delegação negociadora palestina, disse que a votação "acaba com tudo que se chama processo de paz". Essa descrição desdenhosa de uma negociação por um membro importante no processo é imprudente e de mau agouro.

Além disso, retornamos à questão incômoda de Israel ser tratado como Estado judeu. Netanyahu quer que os palestinos reconheçam sua nação como tal. E recentemente afirmou que tal exigência é "a chave real para a paz". Seu argumento é de que esse é o ponto de referência para julgar se os palestinos aceitam "o Estado judeu em qualquer fronteira", em outras palavras, se a liderança palestina aceitará um compromisso territorial ou continuará insistindo nas linhas demarcadas em 1948 e o retorno em massa para Haifa.

Mahmoud Abbas, presidente palestino, diz não: e esse "não" resistirá. Para os palestinos, essa forma de reconhecimento equivale a uma aquiescência explícita a uma cidadania de segunda classe no caso dos 1,6 milhão de árabes de Israel. É a corrosão dos direitos de milhões de refugiados palestinos, a abolição de uma história nacional de expulsão em massa da terra que era sua, e exigirá deles algo que jamais foi requerido do Egito e da Jordânia nos acordos de paz, nem da OLP - Organização de Libertação da Palestina quando, em 1993, Yasser Arafat escreveu para Yitzhak Rabin afirmando que sua organização "reconhece o direito de Israel viver em paz e segurança". Esse debate é um desperdício de tempo e complica a situação desnecessariamente. Como disse Shlomo Avineri, influente cientista político israelense, "é uma questão tática levantada por Netanyahu para tornar as negociações mais difíceis".

Qualquer acordo de paz que crie os dois Estados tem de ser final e irreversível. Deve assegurar que não haverá novas reivindicações palestinas sobre uma Israel segura. E isso exige uma redação afirmando que os dois Estados são a pátria de seus respectivos povos, fórmula usada pela iniciativa de Genebra. Mas isso é para depois.

Se Israel parece e age como um Estado judeu é o suficiente para mim - desde que abandone esse negócio corrosivo que se chama ocupação. O sionismo, o único com que me identifico, forjou uma pátria judaica em nome do orgulho judaico restaurado num Estado democrático regido pelo Direito, não em nome da insistência melindrosa numa forma de reconhecimento, nem do nacionalismo messiânico religioso da Grande Israel.

Quando, há alguns meses, conversei com Yair Lapid, ministro da Economia de Israel, ele afirmou: "Exigirmos dos palestinos uma declaração reconhecendo Israel como Estado judeu parece-me uma imbecilidade. Não precisamos disso. O importante no caso de Israel é que chegamos aqui dizendo que não precisamos de ninguém para nos reconhecer porque nós nos reconhecemos. Estamos libertados".

Correto. E é verdade também que os líderes palestinos, com responsabilidade democrática zero e uma incitação frívola não estão preparando sua população para um compromisso territorial que respeite as fronteiras demarcadas em 1967. Repito: nada nas ações empreendidas por Israel torna isso possível. Seguimos para novos fracassos e mais vitórias da história sobre a normalidade.

*Roger Cohen é colunista.

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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