K. Al-Saeed/CICV
K. Al-Saeed/CICV

'Meu filho morreu sufocado', conta sírio em relato à Cruz Vermelha

Histórias compiladas no documento ‘Vi a minha cidade morrer’ visam mostrar as consequências dos conflitos no Iraque e na Síria nas comunidades locais

O Estado de S.Paulo

14 de junho de 2017 | 15h45

"Eu nunca quis me misturar com as partes envolvidas na guerra. Tinha plena consciência dos riscos se pessoas armadas estivessem na área. Um posto militar próximo de onde vivíamos nos colocou em perigo. Mas aconteceu mesmo assim - o desastre chegou até nós quando o nosso edifício foi atingido. O meu filho morreu sufocado no ataque. Os primeiros três andares do prédio desabaram. Ele não teve nenhuma chance. Estávamos presos entre uma rocha e uma parede sólida, não havia como sair. Não gostaria que ninguém passasse pelo que passamos."

A história de Yasser, 50 anos, morador de Alepo, é uma das muitas relatadas às equipes do Comitê Internacional da Cruz Vermelha e compiladas no documento "Vi a minha cidade morrer", que está sendo lançado nesta quarta-feira, 14, com a intenção de mostrar as consequências dos conflitos no Iraque e na Síria nas comunidades locais.

O bairro de Yasser, Boustan al-Qasr, é um dos que foram muito danificados nos combates. Os edifícios residenciais, as escolas, os negócios e as lojas são verdadeiras carcaças bombardeadas e as ruas, que costumavam ser movimentadas, são caminhos quase vazios que contornam pilhas espalhadas de escombros, diz o documento da Cruz Vermelha.

"Depois da morte do meu filho, a minha mulher ficou com muito medo. Não víamos mais alguns dos nossos filhos. Um estava no Exército havia quase sete anos e mandei o meu segundo filho estudar na Alemanha, na esperança de um futuro melhor para ele. A minha filha se operou duas vezes antes da crise por um ferimento no tendão da perna. Ela não pôde receber os cuidados médicos durante todo o período da violência. O meu caçula tem problemas com os números e tinha aula em uma pequena mesquita perto de casa. Quando a mesquita foi bombardeada, a esperança do meu filho para um futuro melhor foi despedaçada.”

Quando começou o cerco do leste de Alepo no Ramadã de 2016, a situação se agravou ainda mais, já que as pessoas ficaram presas no local durante 190 dias. A situação era de um estado de paralisia.

“O meu filho estava sempre com fome, pois não havia nada para comer ou beber. A comida era extremamente cara. Éramos obrigados a comer diferentes tipos de pratos feitos com lentilha. Como resultado, perdi 25 quilos.”

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