'Meu pai morreu por uma mescla de tálio e gás mostarda'

Quando teve início a investigação sobre a morte de seu pai?

O Estado de S.Paulo

06 de outubro de 2013 | 02h06

Por volta do ano 2000. Até lá, tínhamos rumores e versões. Começa por uma decisão do tribunal, ao vir à tona a utilização pela ditadura de produtos químicos e botulímicos contra seus opositores. Em 2003, a Corte de Apelações decidiu encarregar um só juiz para todos os casos conexos, nomeando o ministro Alejandro Madrid. É capítulo pouco conhecido da história recente do Chile o trabalho feito por esse juiz, de forma muito profissional.

Quando ele condena?

Em 2009. Madrid apontou seis réus, entre médicos, agentes e funcionários de governo. Nosso desejo é que o ministro consiga ir fechando os casos, que se esgotem as apelações e os réus cumpram penas. Um passo importante foi a corte acatar o processo por associação ilícita, ou seja, trata-se de reconhecer que essas mortes são resultado de uma rede, não de pessoas agindo isoladamente.

Que peso teve a perícia?

Comprovou-se a inoculação de uma mescla de tálio e gás mostarda, que comprometeu o sistema imunológico. Madrid trabalhou com dois peritos chilenos, houve participação de cientistas americanos e de outros especialistas. Fora isso, o juiz foi aos EUA, conseguindo ouvir Townley, que vive por lá com identidade arranjada. Berríos, como se sabe, foi morto no Uruguai nos anos 90.

Como foram últimas semanas de vida do ex-presidente?

Meu pai foi hospitalizado, no final de 1981, para uma operação de hérnia. Teve alta, foi para casa, mas vieram complicações. Voltou a ser internado e piorou progressivamente, até a septicemia. Chegou a escrever um bilhete pedindo que o tirassem rápido daquela clínica. Venenos podem ter sido inoculados tanto na primeira quanto na segunda internação.

O que o senhor considerou decisivo na investigação?

Mapear a rede: fomos vendo que eram sempre os mesmos agentes, os mesmos médicos, os mesmos laboratórios. Já são mais de 60 réus ligados a esses esquemas. Há partes dos autos que Madrid mantém em sigilo, porque serão cruciais para chegar a futuros elos.

A morte do seu pai o empurrou para a vida política?

A formação que recebi dele foi de dedicação ao serviço público. Tem a ver com o Chile que ainda precisa esclarecer o destino de muitos desaparecidos. Queremos o seu paradeiro. / L.G.

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