'Meu país se despedaçará se o mundo não o ajudar'

Leia a íntegra do artigo de Morgan Tsvangirai publicado originalmente no jornal 'The Guardian'

O Estado de S. Paulo,

25 de junho de 2008 | 19h20

No decorrer destes últimos meses tumultuados, tive freqüentemente motivos para refletir sobre o que é que constitui um país. Acredito que um país é a soma de suas muitas partes e que ele está personificado em uma coisa: seu povo. O povo do meu país, o Zimbábue, tem suportado mais do que qualquer outro poderia suportar. Onerado pelas taxas de inflação mais elevadas do mundo, a ele são negados os princípios básicos da democracia e agora sofre a pior forma de intimidação e violência nas mãos de um governo que deveria ser do povo e para o povo. O Zimbábue se despedaçará se o mundo não vier em sua ajuda. Veja também:Tsvangirai: de líder sindical a inimigo do regime Mugabe, ditador do Zimbábue há quase 30 anos Evidentemente, a África já testemunhou estas coisas antes. O cenário do Zimbábue é familiar. Um déspota enlouquecido pelo poder mantém o povo refém de seus delírios, esmaga o espírito deste país e tacha a comunidade internacional de louca. Enquanto se aproximam os últimos dias deste período que tem sido extremamente penoso para todos os zimbabuanos, é provável que Robert Mugabe reivindique a presidência o nosso país e trate de negar ao seu povo mais espaço para respirar e sentir o alento da liberdade. Não posso mais permitir que o povo do Zimbábue sofra esta tortura, porque acredito que não tem mais condições de suportar esta força esmagadora. É por isso que resolvi desistir de concorrer ao segundo turno das eleições presidenciais. A minha não é uma decisão política. Evidentemente, não há necessidade de haver uma votação, porque o Movimento pela Mudança Democrática ganhou a maioria no primeiro turno das eleições, realizado em março. Isto é indiscutível, mesmo para a comissão eleitoral do Zimbábue favorável a Mugabe. Agora, nosso pedido de intervenção visa a contestar os procedimentos normais da diplomacia internacional. A tranqüila diplomacia do presidente sul-africano Thabo Mbeki é característica desta desgastada estratégia, ao tentar incentivar a um ditador derrotado em vez de mostrar-lhe a porta de saída e empurrá-lo para fora. Nós prevemos uma estratégia mais enérgica e, de fato, ativista. Nossa proposta quer eliminar as barreiras que debilitam a soberania do Estado, que repousa sobre os alicerces seculares da santidade dos governos, até mesmo os que se revelaram ilegítimos e decrépitos. Pedimos à ONU que vá mais longe do que em sua recente resolução de condenação da violência no Zimbábue, e chegue a um isolamento ativo do ditador Mugabe. Para tanto, precisamos de uma força de proteção do povo. Não queremos um conflito armado, mas o povo do Zimbábue precisa das palavras de indignação dos líderes de todo o mundo para ter o respaldo da retidão moral da força militar. Esta seria representada pelas tropas da força de paz, e não por arruaceiros. Elas separariam o povo dos seus opressores e ergueriam um escudo protetor ao redor do processo democrático pelo qual o Zimbábue anseia.  O próximo passo deveria ser uma nova eleição presidencial. Na realidade, isto pesa para o Zimbábue e cria uma atmosfera de limbo. Entretanto, não existe uma alternativa que não contenha sofrimento. A realidade é que uma nova eleição, sem violência e intimidação, é a única forma de consertar o Zimbábue. Parte deste processo seria a introdução de uma monitoração do processo eleitoral por meio de observadores da União Africana e da ONU. Isto também exigiria um reconhecimento da minha candidatura legítima. Seria a melhor chance que o povo do Zimbábue teria de ver suas escolhas registradas de forma justa e sem fraudes. É claro que intervenção é um conceito muito carregado no mundo de hoje. Entretanto, apesar das dificuldades inerentes a certas intervenções que chamaram a atenção do mundo, as decisões de não intervir criaram do mesmo modo conseqüências trágicas. A batalha que se trava no Zimbábue hoje é uma batalha entre a democracia e a ditadura, a justiça e a injustiça, o certo e o errado. É uma batalha da qual a comunidade internacional precisa participar, não apenas em termos morais. Ela precisa mobilizar-se. Morgan Tsvangirai é o líder do Movimento pela Mudança Democrática do Zimbábue. 

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