Caitlin O'Hara/The New York Times
Caitlin O'Hara/The New York Times

Mexicana é deportada após fazer visita de rotina ao serviço de imigração

Todo ano Guadalupe García de Rayos tinha de se apresentar a agentes migratórios após ser presa em 2008 com documentos falsos

O Estado de S.Paulo

09 Fevereiro 2017 | 19h24

PHOENIX, EUA – Durante oito anos Guadalupe García de Rayos compareceu ao escritório local do Serviço de Imigração e Controle de Alfândega para revisar seu caso. Era uma exigência após ser descoberta usando um número de seguro social falso em uma operação anti-imigração ilegal no parque aquático em que trabalhava em 2008. Anualmente, ela ia ao escritório, os agentes revisavam seu caso, faziam algumas perguntas e Guadalupe ia embora.

Até quarta-feira, quando agentes migratórios prenderam Guadalupe, de 35 anos, e iniciaram o processo para deportá-la para o México, um país no qual ela não pisava havia duas décadas.

Ela foi levada do escritório de imigração em uma caminhonete, enquanto manifestantes e ativistas esperavam do lado de fora. "Libertação, não deportação", gritavam. A filha de Guadalupe, Jacqueline, levava um cartaz que dizia: "Nem uma deportação mais". Os ativistas cercaram o veículo para tentar impedir sua passagem e sete pessoas foram presas.

Guadalupe foi detida dias após o governo Trump ampliar a definição de "estrangeiro criminoso", uma mudança que os ativistas dizem que afetará a maioria das pessoas ilegais nos EUA.“Estamos vivendo em uma nova era, uma era de guerra contra os imigrantes”, disse o advogado de Guadalupe, Ray Ybarra Maldonado, após sair do prédio da imigração.

O governo de Barack Obama deu prioridade às deportações de migrantes considerados uma ameaça para a segurança pública ou nacional, que tivessem vínculos com grupos criminosos ou tivessem cometido crimes sérios ou vários delitos menores. Guadalupe não cumpre com nenhum desses critérios, razão pela qual pôde permanecer nos EUA, apesar de um juiz ter emitido uma ordem de deportação contra ela em 2013. 

Mas isso mudou com  Trump. Uma das 18 ordens executivas que ele emitiu desde que tomou posse, em 20 de janeiro, prevê que todo imigrante ilegal condenado por qualquer tipo de infração - até mesmo os que não cometeram nenhuma acusação, mas se suspeita que tenha cometido "atos que poderiam ser uma infração criminal - deve ser prioridade quando se trata de deportação. 

Yasmeen Pitts O’Keefe, porta-voz do serviço de imigração, disse em um comunicado que Guadalupe "está sob detenção do Serviço de Imigração e Controle de Alfândega em razão de uma ordem de remoção emitida pelo Escritório Executivo de Revisão de Casos de Imigração de 2013.O advogado de Guadalupe registrou um pedido de adiamento de deportação, mas o serviço de imigração não informou quando ela seria expulsa dos EUA.

Segundo os principais grupos de defesa dos direitos civis, Guadalupe possivelmente é a primeira imigrante ilegal presa enquanto fazia uma revisão programada de sua situação após a posse de Trump. Milhares de outras pessoas correm risco similar quando forem às revisões migratórias regulares.

Guadalupe tinha 14 anos quando deixou a cidade de Acámbaro, no Estado mexicano de Guanajuato, cruzou a fronteira pela cidade de Nogales e entrou no Arizona. Ela se casou com um homem que também é imigrante ilegal e tiveram um filho e uma filha, que hoje são adolescentes.

“O único delito que minha mãe cometeu foi trabalhar para dar uma vida melhor a seus filhos", disse Jacqueline. Guadalupe trabalhava no Golfland Sunsplash, um parque aquático em Mesa, um subúrbio de Phoenix, quando agentes do xerife do Condado de Maricopa, Joe Arpaio, realizaram a operação, em 16 de dezembro de 2008.

Guadalupe passou três meses em uma prisão do condado e outros três meses em um centro de detenção migratório. Em 2013, uma corte migratória ordenou que ela fosse expulsa para o México, mas seu caso ficou em suspenso, pois as autoridades federais sob o governo Obama decidiram não executar a ordem de deportação. Angel, filho de Guadalupe, ainda lembra a noite em que sua mãe foi presa. "Nunca vou esquecer aquela noite, pois passei a viver com o medo de perder minha mãe."

Nesta quinta-feira, o marido de Guadalupe recebeu um telefonema dela, dizendo que estava em Nogales, México, ao sul da fronteira com o Arizona. Jacqueline, que havia passado a noite em vigília com ativistas, começou a guardar em uma mala a escova de dentes da mãe, suas calças favoritas, camisetas. "Ninguém deveria ter de fazer a mala da mãe", disse com os lábios trêmulos e os olhos marejados. "Não é justo." / THE NEW YOR TIMES

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