Luis Antonio Rojas/The New York Times
Luis Antonio Rojas/The New York Times

Mexicanos com covid morrem em casa por falta de oxigênio

Com hospitais superlotados, mexicanos que lutam contra novo coronavírus em casa enfrentam obstáculo mortal: a falta de tanques de oxigênio

Natalie Kitroeff e Oscar Lopez, The New York Times

15 de fevereiro de 2021 | 09h00

CIDADE DO MÉXICO - As crianças ligam para ele implorando oxigênio para os pais. Os avós ligam com falta de ar no meio da noite. Pessoas sem dinheiro oferecem a ele seus carros.

Juan Carlos Hernández diz a todos a mesma coisa: ele não tem mais tanques de oxigênio.

Depois de sobreviver à sua própria luta contra o novo coronavírus e perder o emprego, Hernández começou a vender tanques de oxigênio em seu carro. Então, uma segunda onda de covid-19 atingiu o México neste inverno no hemisfério norte e a demanda por oxigênio explodiu, gerando uma escassez nacional de aparelhos que fornecem o valioso recurso.

Os preços dispararam. Um mercado paralelo ganhou espaço. Grupos criminosos organizados começaram a sequestrar caminhões cheios de tanques de oxigênio ou roubá-los de hospitais sob a mira de armas, de acordo com relatos da imprensa. E para um número crescente de mexicanos, as chances de sobrevivência estavam subitamente nas mãos de vendedores amadores de oxigênio como Hernández.

“Estamos no mercado da morte”, disse Hernández. “Se você não tem dinheiro, pode perder uma pessoa da sua família.”

O ressurgimento da pandemia no México deixou mais pessoas infectadas do que nunca - entre elas o presidente do país, Andrés Manuel López Obrador. Com hospitais lotados e a desconfiança no sistema de saúde obrigando muitos a enfrentar a doença em casa, o número de vítimas disparou. Em janeiro, o México registrou mais de 30 mil mortes, o maior número em um mês até agora.

O total de mortes causadas por covid-19 no México é agora o terceiro maior em todo o mundo, maior do que na Índia, um país 10 vezes mais populoso.

Parte da razão pela qual tantas pessoas estão morrendo agora, dizem médicos e autoridades do governo, é a escassez: simplesmente não há tanques de oxigênio suficientes.

“O oxigênio agora é como água”, disse Alejandro Castillo, médico que trabalha em um hospital público na Cidade do México. “É vital.”

Novos surtos em todo o mundo sobrecarregaram o fornecimento de oxigênio em hospitais de Los Angeles a Lagos, Nigéria, mas no México, a escassez está sendo sentida dentro das casas das pessoas.

Oito em cada 10 leitos hospitalares estão ocupados na Cidade do México, o epicentro do surto, e os pronto-socorros têm recusado pessoas. Muitos pacientes se recusam a procurar atendimento médico, movidos pelo medo dos hospitais nas pequenas cidades onde vivem no interior do México.

Para sobreviver em casa, os pacientes mais doentes precisam ter oxigênio purificado bombeado em seus pulmões 24 horas por dia, fazendo com que amigos e parentes se esforcem, muitas vezes em vão, para encontrar tanques e reabastecê-los várias vezes ao dia.

David Menéndez Martínez não tinha ideia de como a oxigenoterapia funcionava até que sua mãe adoeceu com covid-19 em dezembro. Agora ele sabe que o menor tanque do México pode custar mais de US$ 800, até 10 vezes mais do que em países como os Estados Unidos. O oxigênio para enchê-lo custa cerca de US$ 10 - e pode durar até seis horas.

Menéndez conseguiu alguns tanques emprestados por amigos, mas ainda passou horas esperando para reabastecê-los em filas que se estendem por quarteirões da cidade e se tornaram uma referência em certos bairros da Cidade do México.

“Você vê as pessoas chegando com seus tanques e querem ficar na frente da fila e acabam chorando, estão desesperadas”, disse ele, lembrando dos apelos que ouviu: “Meu pai está com 60% de saturação de oxigênio. Meu irmão está com 50% de saturação. Minha esposa não consegue mais respirar. Ela está ficando azul, seus lábios estão azuis, me ajude. "

Menéndez só pensava na mãe. “Imaginei minha mãe sufocando”, disse ele.

O surto na Cidade do México começou a se intensificar em dezembro, depois que as autoridades atrasaram o fechamento de estabelecimentos não essenciais por semanas, apesar dos números que, de acordo com as próprias regras do governo, deveriam ter desencadeado um lockdown imediato. As autoridades acabaram reforçando as restrições na capital, mas então vieram as festas de fim de ano e muitos mexicanos desafiaram os apelos do governo para ficarem em casa.

Só nas primeiras três semanas de janeiro, a demanda por oxigênio domiciliar em todo o país aumentou 700%, de acordo com Ricardo Sheffield, chefe do escritório federal de proteção ao consumidor do México.

Com o aumento da necessidade, os preços triplicaram. Os golpistas se multiplicaram na internet.

“O aumento veio do nada”, disse Sheffield, que observou que a manipulação de preços funcionou apenas porque as pessoas estavam muito desesperadas. “Se essas pessoas não recebem oxigênio a tempo, elas morrem.”

Os mexicanos se acotovelam pelo fornecimento limitado de tanques de oxigênio que são passados de uma casa para outra por empresários como Juan Carlos Hernández.

Hernández, ex-vendedor de empréstimos para carretas, está em conflito com sua atual linha de trabalho. Ele admite prontamente que não tem “nenhum treinamento” e nenhuma licença, mas justifica fazer o trabalho porque “salva vidas”.

Hernández parou de vender tanques em dezembro, quando os distribuidores aumentaram tanto os preços que ele não tinha estômago para repassar o custo para seus clientes. Agora ele vende concentradores de oxigênio, que são mais caros e atraem um cliente mais rico. Em uma boa semana, ele ganha o dobro de seu antigo salário vendendo empréstimos.

“Você não deveria lucrar com a dor dos outros, é desumano”, disse ele. "Mas, no final do dia, também estou fazendo isso."

Para as pessoas à mercê do mercado caótico, encontrar alguém - qualquer um - com oxigênio é um alívio. No tempo que passou perambulando pela cidade em busca de oxigênio, a única felicidade que Menéndez se lembra de ter tido foi quando chegava à frente da fila e ia embora com o tanque cheio.

“Não importava se eu tinha comido”, disse ele. “Não importava se estava frio. Não importava se eu me sentia cansado ou com sono, se eram 3 da manhã. Tudo valia a pena: eu tinha uma maneira de manter minha mãe respirando, de mantê-la neste mundo. ”

Quando encontrou um vendedor que lhe alugava um concentrador por US$ 100 por semana, ele sentiu um lampejo de esperança. “Foi uma bênção”, disse Menéndez.

A máquina manteve sua mãe viva por um tempo, até que seus pulmões pararam. Ela foi entubada na véspera de Natal e morreu antes do ano novo./ TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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