Claudio Cruz/AFP
Claudio Cruz/AFP

Mexicanos deportados dos EUA esperam nova política migratória na era Biden

Democrata sinalizou durante campanha que queria reverter decisões do governo Trump

Redação, O Estado de S.Paulo

28 de novembro de 2020 | 04h00

Mauricio López foi deportado para o México depois de passar a maior parte de sua vida nos Estados Unidos. Embora pareça impossível, o jovem espera que o governo de Joe Biden permita que ele reúna sua família. 

Aos 26 anos, o professor de inglês é um dos milhares de "Dreamers" (sonhadores), que migraram para os Estados Unidos ainda crianças, e foram alvo das políticas de imigração de governos recentes.

Como muitos outros deportados, especialmente durante a administração do republicano Donald Trump, Mauricio está confiante de que Biden pressionará por uma reforma que proteja os 'sem documentos'. 

“Se as leis de imigração afrouxassem, isso nos beneficiaria. Se houvesse processos de asilo, se fosse mais fácil para nós obter autorizações de trabalho ou vistos de turista, já que muitos de nós temos famílias lá”, disse o jovem à Agência France-Presse na Cidade do México.

Em 2016, com Trump no poder, Mauricio retornou ao México da Carolina do Norte quando não conseguiu renovar o DACA, um programa que concede a jovens sem residência legal permissão para trabalhar e estudar a cada dois anos. 

A família se separou, já que ele foi deportado com sua mãe, mas uma irmã ficou. Outro irmão já havia retornado anos antes. 

Mauricio pertence a uma comunidade crescente de deportados, que aos poucos vão se integrando a um país que consideram estrangeiro. 

De acordo com o Ministério do Interior, só no primeiro semestre deste ano cerca de 89 mil mexicanos foram deportados dos Estados Unidos.

Caminho minado

Durante o governo democrata de Barack Obama, do qual Biden foi vice-presidente, três milhões de imigrantes sem documentos foram deportados. 

Mas durante a campanha recente, Biden sinalizou que queria reverter as políticas migratórias do governo Trump, que prometia deter quase toda a imigração e expulsar mais de 10 milhões de pessoas. 

Trump também pressionou pela construção de um muro na fronteira com o México. 

No entanto, especialistas alertam que desfazer esse caminho não será fácil, já que os republicanos mantêm o controle do Senado, embora isso possa mudar com o segundo turno da eleição para as duas cadeiras da Geórgia, realizada em 5 de janeiro. 

“Mesmo com a boa vontade do novo governo, isso não acontecerá em breve”, diz Letícia Calderón, pesquisadora do Instituto Mora, na Cidade do México.

Para Calderón, em princípio, é esperado que Biden restaure o DACA, proposto por Obama e que Trump tentou limitar e até eliminar. 

“Trump foi muito agressivo com eles, então é provável que resolvam nos primeiros cem dias de governo, mas isso tem que passar pelo Senado, e foi lá que empacou”, diz o especialista. 

Mesmo que não se beneficie de uma reforma, Mauricio espera que uma mudança alcance outros jovens. 

“Com Biden, os 'Dreamers' estão mais otimistas, há esperança de um caminho para a cidadania e para a residência”, diz López. 

Doze milhões de pessoas nascidas no México e 26 milhões de segunda ou terceira geração vivem nos Estados Unidos.

Política justa

O mesmo sentimento acompanha Ben Moreno, 54 anos, que foi deportado durante a presidência de Obama. A primeira vez que ele foi expulso para seu Estado natal , Coahuila, foi na década de 1990. A segunda vez, em 2014. 

O pai de dois filhos dirigia uma construtora em Indianápolis, Indiana. Ele não queria passar anos preso em uma estação de imigração, então, assinou sua deportação. 

Seus pais, que votaram pela primeira vez, votaram em Biden, assim como o resto da família. 

“Sinceramente, não acho que Biden vai impedir as deportações, mas espero que este governo seja justo sobre quem vai deportar e como o fará”, disse Moreno. 

Apesar das expectativas para uma reforma, Calderón enfatiza que Biden deve ser cauteloso para que sua mensagem não seja interpretada como um “convite à migração”. 

"O sistema de imigração dos Estados Unidos não tem partido político”, diz o especialista. /AFP

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